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Quotidianos

BARREIRO - O macaco, o gato e as castanhasPor Nuno Santa Clara

A saga da extinção (mascarada de fusão ou agregação) de freguesias teve recentemente um capítulo semelhante ao do conto do macaco e do gato.
Comprometido o Governo com a extinção de freguesias, procurou fazer passar a mensagem dessa obrigatoriedade para os autarcas, tarefa aparentemente simples, porquanto o partido no poder tinha a maioria das Câmaras Municipais.

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BARREIRO - O macaco, o gato e as castanhas Por Nuno Santa Clara

Por Jornal Rostos

A sabedoria popular exprime-se por muitas formas, desde os provérbios às canções, aos ditos e até aos simples sorrisos e caretas.
Durante séculos, essas formas de expressão foram uma forma de dizer o que pensavam e sentiam os que não tinham direito de exprimir-se; remetendo os reparos para um provérbio, naturalmente de autor desconhecido, exerciam o direito de crítica, sem temer represálias.
Um simples esgar condenava uma ação, sem ter de afirmar em voz alta o seu repúdio pelo ato.
Outra forma de criticar os costumes, ou de dar exemplos, era o conto. Muitas vezes recorrendo a bichos, mais uma vez como forma de anonimato- ao estilo de “não me comprometam”.
Uma dessas histórias edificantes é a do macaco e do gato, sentados em frente à lareira, onde assavam apetitosas castanhas. Bem cheiravam as castanhas, e mais ao macaco que ao gato, pela natureza das coisas.
Mas o macaco tem uma esperteza criativa que o distingue dos outros animais. E vá de provocar o gato:
- Bem que eu tirava umas castanhas para comermos, nós os dois. Mas não tenho o teu jeito, nem a tua destreza, a tua rapidez… Fazes-me inveja!
Foi quanto bastou para que o gato se atrevesse a tirar castanhas do lume, uma a uma, queimando as patas, sofrimento compensado pelo orgulho de ser capaz de tão difícil tarefa.
Entretanto, nas costas dele, o macaco ia comendo as castanhas, uma a uma, à medida que o gato as tirava do lume.
Quando acabou o seu perigoso e doloroso trabalho, o gato virou-se para o macaco e disse:
- Agora, vamos às castanhas! Onde estão elas?
E o macaco, com ar seráfico:
- Bem… fui comendo, para não arrefecerem… ficam tão sem graça…
Moral da história: qualquer macaco pode levar um triste gato, por persuasão, a fazer algo difícil e doloroso, convencendo-o de um ganho futuro, que nunca se concretizará.
E entre os humanos?
A saga da extinção (mascarada de fusão ou agregação) de freguesias teve recentemente um capítulo semelhante ao do conto do macaco e do gato.
Comprometido o Governo com a extinção de freguesias, procurou fazer passar a mensagem dessa obrigatoriedade para os autarcas, tarefa aparentemente simples, porquanto o partido no poder tinha a maioria das Câmaras Municipais.
E então não é que as bases se rebelaram? As Associações de Municípios e de Freguesias rejeitaram o processo e pediram a revogação da lei, mas aparentemente em vão.
Houve alguns autarcas que aceitaram. Tal como o gato, alinharam com o Governo, sabe-se lá porquê. Por mim, não me pronuncio, porque não sou bruxo e não gosto de especulações.
Tal como o gato, lá aceitaram a difícil e dolorosa tarefa, arrostando com a ira dos seus munícipes.
Mas agora vem um membro do Governo a dizer que há gente a mais na Administração Local, e como tal há que recolocar ou despedir pessoal.
O complicado é que, se a iniciativa foi do Governo, contra ventos e marés, os custos dessas deslocações e despedimentos ficam por contas das autarquias – as tais cuja maioria rejeitou a iniciativa governamental.
De ajudas, compensações, ou outros paliativos, ninguém falou.
De modo que os apoiantes desta medida do Governo devem ter ficado como o gato: com as mãos queimadas e a chuchar nos dedos.
A menos que tenham arranjado castanhas noutro lado…

Nuno Santa Clara

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