Recapitulando - BarreiroPor Nuno Santa Clara

Por Jornal Rostos
Já nos idos de 2011, a questão da nova geografia autárquica foi por mim tratada num artigo intitulado “Chapéus há muitos”, numa alusão cruzada entre o Vasquinho da Anatomia, do filme “A Canção de Lisboa”, e as “chapeladas”, nome por que ficaram conhecidas as eleições manipuladas do Liberalismo da segunda metade do século XIX, em Portugal.
Posteriormente, publiquei outro artigo, intitulado “Aritmética eleitoral”, em que tratava do desleixo dos eleitores potenciais em relação à atualização dos cadernos eleitorais.
Publiquei ainda outro artigo, chamado “Geografia autárquica”, em que esboçava várias hipóteses de agregação de freguesias, dentro do que pensava que seria lógico, ou seja, a agregação de freguesias em torno de uma repartição equilibrada da população e da agregação de áreas com afinidade em termos de geografia humana.
Assim, a hipótese considerada era:
• Juntar o Barreiro com o Alto do Seixalinho e a Verderena, área predominantemente urbana, com 19.487 votantes, cujos últimos resultados eleitorais foram 46,6% para a CDU, 31,7% para o PS e 9,8% para o PSD;
• Juntar o Lavradio com S. André, área de transição, com 11.991 votantes, cujos últimos resultados eleitorais foram 48,5% para a CDU, 30,1% para o PS e 8,8% para o PSD;
• Juntar S. António, Palhais e Coina, área mais rural, com 6.447 votantes, cujos últimos resultados eleitorais foram 38,1% para a CDU, 33,5% para o PS e 10,5% para o PSD.
Segundo as últimas informações, a solução A, a adiantada pelo Governo, será:
• Juntar o Barreiro ao Lavradio, o que, segundo os últimos dados, conduziria a 46.7% para a CDU, 30,0% para o PS e 11,1% para o PSD;
• Juntar o Alto do Seixalinho a Santo André e à Verderena, o que levaria a 47,2% para a CDU, 31,6% para o PS e 8,5% para o PSD;
• Juntar Palhais a Coina, o que daria 36,9% para a CDU, 45,6% para o PS e 7,6% para o PSD;
• Manter Santo António, com os mesmos 39,4% para a CDU, 33,4% para o PS e 11,6% para o PSD.
A primeira conclusão que se poderia tirar é que, em termos do atual Governo, o Barreiro é um caso perdido, pois nem com a alteração do mapa das freguesias surgem alterações eleitorais previsíveis. Mas será mesmo assim?
A primeira verdadeira grande conclusão é que, além de ter sido atropelada a vontade das populações, foram cilindrados fundamentos históricos, com especial destaque para as comunidades do Barreiro e do Lavradio, tão ciosas das suas tradições.
A segunda é que se pretendem fazer agregações (recuso-me a pôr-lhes nome) ilógicas, uma vez que a primeira teria 27,9% de eleitores do concelho, a segunda 55,1%, a terceira 4,7% e a quarta (esta é a única que tem nome) 12,6%. Qual a razão destas discrepâncias?
Não estamos no caso extremo do concelho de Almada, onde (sempre segundo os últimos resultados eleitorais) em 147.308 eleitores inscritos, apenas 10.861, ou seja, 7,4% do total, pertenciam à freguesia da Costa de Caparica. Ora, essa mesma freguesia ficou isenta da agregação que amalgamou dezenas de milhar de cidadãos, com pouco de comum entre eles, em mega freguesias. A título de curiosidade, a Costa de Caparica, é (era?) a única freguesia PSD no concelho…
A questão é que, ainda em termos do atual Governo, nem tudo está perdido. Com esta solução, algo se pode ganhar:
• A desaparição de Palhais (apesar do seu peso histórico) faria perder uma freguesia à CDU;
• A manutenção de Santo António dá alguma esperança de que a CDU possa perder outra freguesia, uma vez que os últimos resultados (39,4% para a CDU contra 33,6% do PS) representam uma margem escassa que pode ser ultrapassada.
A aritmética eleitoral aí está, ao alcance de quem tiver aprendido a tabuada; nem é preciso álgebra para decifrar as contas que estão por detrás das decisões.
Como disse em tempos William Thompson (Lord Kelvin), quando podemos pôr um problema em equação, e expressá-lo por números, sabemos do estamos a falar.
E estes números explicam o que, de outra maneira, seria inexplicável.
Nuno Santa Clara














