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Quotidianos

EDUCAÇÃO PÚBLICA - PONTOS PARA UMA VISÃOPor José Caria
Montijo

Mais do que debater cortes em Educação ( violentos, desnecessários, merecendo oposição ) é essencial percebermos o que se define como um modelo cada vez mais implementado : a tendência para a Concentração e a Distância.

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EDUCAÇÃO PÚBLICA - PONTOS PARA UMA VISÃO Por José Caria Montijo

Por Jornal Rostos

1. Em educação pública a eventual utilização de termos polissémicos e imprecisos dificulta a conceituação das palavras interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade na educação dos meninos e das meninas ;
A interdisciplinaridade tem uma natureza orgânica, na medida em que estabelece uma troca e cooperação; ela pode ser vista como um diálogo entre as várias disciplinas de um currículo.
Multidisciplinaridade representa uma associação de disciplinas por um projeto ou objeto que sejam comuns a elas, estando em perfeita interação para resolvê-los.
A transdisciplinaridade, por sua vez é vista como: “esquemas cognitivos que podem atravessar as disciplinas com tal virulência que as deixam em transe“.

2. Para a realização de um papel fecundo da Educação, da educação pública, na história das ciências é preciso conservar as noções consideradas chave para a consecução desse objetivo e promover a cooperação dentro
de um projeto comum que tenha um objeto também comum.
A(s) disciplina(s) precisa(m) ser simultaneamente aberta(s) e fechada(s) e promover um conhecimento em movimento, isto é que possibilite que se conheça, ao mesmo tempo, o todo e as partes .
3. A vida, traduzida por atividades sociais, em função do desenvolvimento das ciências (educação incluida), exige hoje que as pessoas tenham um ângulo de visão mais amplo, que ultrapasse as fronteiras históricas das disciplinas, junto com a capacidade de focalizar os problemas em profundidade.
A fragmentação e a separação dos saberes, por setor do conhecimento contrapõem-se ( conforme Morin ,Edgar ) “às realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais,
globais, planetários“.
“De fato, a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui)“.

4. A educação dos meninos e das meninas não acompanhou, nalguns casos, o desenvolvimento da ciência, em termos de complexidade e de multidimensionalidade ;
Manteve o desenvolvimento das disciplinas, em vez de corrigi-lo.
Alguma escola não reconhece a correlação entre os vários saberes, a escola separa-os entre si, isolando os objetos do seu meio ambiente;
Os problemas são dissociados e não integrados;
O complexo é reduzido ao simples, separando o que está ligado, sem recompor o que foi decomposto e eliminando o que possa provocar contradição ou desordem no nosso entendimento.
A contextualização das disciplinas e a sua integração em conjuntos ficam prejudicadas pela falta de condições para que os meninos e as meninas, as Crianças, e os jovens desenvolvam a sua capacidade de fazê-lo.
A progressiva multidimensionalidade dos problemas aumenta alguma impossibilidade de pensá-los.
O crescimento das crises, por sua vez, também aumenta alguma incapacidade de pensá-los.
Nalguma escola os objetos são isolados, as disciplinas separadas e os problemas dissociados. O complexo é reduzido ao simples, separando o que apresenta ligação, decompondo as partes e eliminando as contradições.

5. As discussões sobre as mudanças a serem feitas, de acordo com uma nova concepção de educação , devem ser orientadas no sentido da construção de uma nova ordem social; que essa nova educação contribua para tornar o mundo melhor nas esferas da saúde (desde logo a saúde biológico-física), da justiça social, na solução de problemas como a guerra, a fome, o crime, a pobreza, e outros problemas sociais.
A preocupação do ensino fundamental dos meninos e das meninas, das Crianças e jovens deve ser a de despertar e incentivar a curiosidade natural e a consciência dos alunos, estimulando-os a descobrir a dupla natureza do
homem: biológica e cultural.
Com essa finalidade iniciar-se-á mostrando os aspectos físicos e químicos da sua organização biológica, o que levará à sua inserção no cosmos ;
Simultaneamente devem ser dadas a conhecer e conhecidas as várias dimensões da realidade humana: biológica, psicológica, social e histórica(e outras...).

6. Mais do que debater cortes em Educação ( violentos, desnecessários, merecendo oposição ) é essencial percebermos o que se define como um modelo cada vez mais implementado: a tendência para a Concentração e a
Distância. Ao nível da gestão escolar, a opção por continuar o processo de concentração em mega agrupamentos cada vez maiores leva a que os centros de decisão, mesmo a nível local, se concentrem cada vez mais, tanto do ponto de vista administrativo como do ponto de vista pedagógico. A junção de escolas de diferentes níveis de ensino numa articulação vertical tem as suas vantagens, mas essas entram em colapso quando se força a junção de estabelecimentos de ensino com práticas e projectos diversos, com culturas de escola conflituantes, forçando a homogeneização do que era diverso e impondo um modelo único de gestão em que a direcção, o conselho pedagógico, o conselho geral e até os cargos de chefia intermédia como as coordenações de departamento estão cada vez mais distantes daqueles que devem acompanhar, orientar ou supervisionar.

José Caria
ex-Professor

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