A arte de negociarPor Nuno Santa Clara
Barreiro
O vendedor, que não está ali para praticar a caridade, diz o seu preço. Um preço justo, considerando o valor do carro, o lucro legítimo que quer tirar do negócio, depois pagos os encargos bancários, os legais e outros que tais.

Por Jornal Rostos
Imagine o leitor que alguém quer comprar um carro e, para mais verosimilhança, um carro em segunda mão.
O hipotético comprador entra no stand, escolhe um carro, segundo as suas conveniências, e pergunta o preço.
O vendedor, que não está ali para praticar a caridade, diz o seu preço. Um preço justo, considerando o valor do carro, o lucro legítimo que quer tirar do negócio, depois pagos os encargos bancários, os legais e outros que tais.
Cinco mil euros, teria dito o vendedor, acrescentando decerto alguma expressão amável, de conveniência e de nítido conteúdo comercial, ligado à área de captação de clientes.
Responde o cliente: Cinco mil euros? Pois eu ofereço sete mil!
Imaginemos a cara do vendedor que, depois de uma oferta razoável, recebe uma contra proposta deste estilo. O que terá ele pensado?
Várias hipóteses se podem pôr.
1. O comprador não goza, em pleno, das suas faculdades mentais; não que seja completamente louco, uma vez que ainda tem capacidade legal; caso contrário, deveria estar interditado, talvez mesmo internado numa clínica da especialidade;
2. O comprador quer dar sumiço ao dinheiro, para justificar despesas e fugir ao fisco, contornando a célebre questão dos escalões das Finanças Públicas;
3. O comprador quer descapitalizar uma empresa, prejudicando eventuais sócios, deserdando filhos ou sonegando meios à mulher legítima; esses casos também existem;
4. Outros interesses inconfessáveis e inimagináveis para o comum dos mortais.
Ora, veio recentemente a lume a questão de o Governo ter ultrapassado as exigências da Troika nos cortes orçamentais, ao que se diz em quatro mil milhões de euros.
Dado que se trata de uma negociação, e como tal não muito diferente da aquisição de um carro usado (e quão usados estamos nós!), deixo aqui um pequeno jogo para os leitores:
Qual das hipóteses acima referidas é a correta?
Infelizmente, devido à atual conjuntura, não posso atribuir prémios aos vencedores.
Mas espero que esta pequena atividade lúdica possa contribuir para melhorar a sombria disposição que se tem vindo a tornar um mal generalizado.
Nuno Santa Clara














