A Poluição no Barreiro: os «gases da CUF»Por Rosalina Carmona
«Nada escapa às rajadas devoradoras dos gazes da CUF. Morrem as plantas, morrem os frutos, morrem as flores, morre a própria terra que fica calcinada debaixo de tão densas nuvens de gaz e de veneno, e ninguém se apercebe e ninguém se comove por uma situação tão desesperada que está causando a desolação e a ruína de tantos milhares de pessoas!»

Por Jornal Rostos
[Este texto é parte da comunicação “A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social” apresentada no Colóquio Internacional "Industrialização em Portugal: o caso do Barreiro. 100 anos da CUF 1908-2008"
Num contexto de transformações profundas, em que o Barreiro se tornara um dos centros mais industrializados do país, a intensificação da produção fabril representou a ruptura definitiva com paisagem tradicional.
As actividades industriais da CUF fizeram-se sentir desde os primeiros tempos, transformando a paisagem e o ambiente por completo, num processo destrutivo que, para os padrões actuais, seria completamente inaceitável.
Logo em 1910 Veiga Beirão, amigo pessoal de Alfredo da Silva em visita às fábricas do Barreiro, dá-se conta dessas mudanças. Referindo-se às altas chaminés que agora marcam o novo perfil do Barreiro assinala o «odor horrível das emanações químicas que se espargem no ar…»(1) , provocadas pelo pulsar do gigantesco colosso industrial em permanente ebulição.
Na verdade nada voltará a ser como dantes na antiga vila piscatória e nem sequer o rio, com a sua variada fauna marítima escapa à destruição, provocada pelos líquidos e lamas resultantes dos fabricos químicos.
Se é certo que à época de instalação da CUF no Barreiro não existia ainda uma consciência ecológica clara, os efeitos da poluição eram contudo, particularmente visíveis e começavam a preocupar a Câmara Municipal.
Com efeito, 6 anos após a laboração da CUF a Comissão Executiva da Câmara, solicita ao Sub-delegado de Saúde do Barreiro, um parecer «sobre o fumo das diversas chaminés da Companhia União Fabril que se julga muito prejudicial para a saúde pública.» (2).
As preocupações com a saúde e com o ambiente ressaltam igualmente de um ofício do Centro Socialista do Barreiro, em que se pedem enérgicas providências «sobre o mal que está causando à vegetação e às pessoas que comem hortaliças, o ácido sulfúrico da Fábrica da União Fabril.» (3)
Na continuidade destes registos, encontramos em 11 de Maio de 1916, uma reclamação dos habitantes do Largo das Obras «por causa das águas dos poços deste sítio não estarem em condições de serem utilizadas para consumo, devido a infiltrações vindas da fábrica da Companhia União Fabril.» (4)
A expansão da CUF com o consequente aumento da poluição industrial, levantava as mais sérias reservas à Comissão Executiva da Câmara que, em 24 de Maio de 1917, enviou um protesto ao Administrador do concelho, reclamando contra a construção da «nova fábrica de sulfuretos da Companhia União Fabril, desta vila»(5) , por considerar que esta seria prejudicial à população do Barreiro.
“A Questão dos gazes da CUF” vai continuar na ordem do dia e encontra repercussões na imprensa local, nomeadamente no jornal “Eco do Barreiro” que, em Novembro de 1930 se refere aos prejuízos causados pela poluição originada pelas fábricas.
Numa entrevista ao “Eco do Barreiro”, Bento da Silva Fernandes, Tenente da GNR e Administrador do Concelho, reconhece a gravidade do problema e declara-se «o primeiro a condenar um mal que atinge esta laboriosa população e a própria Câmara Municipal, já se pôz à frente de um protesto, contra os prejuízos causados pelos gazes expelidos das chaminés da fábrica da Companhia União Fabril no Barreiro.» (6)
Num eloquente artigo intitulado “Bradar no deserto - Gazes da CUF”, aquele órgão de imprensa classificava o problema como um cataclismo e uma «autêntica guerra de gazes asfixiantes» que se abatera sobre a população do Barreiro, perante a completa indiferença do patrão da CUF, da sua administração e das «pessoas que dirigem a CUF [a quem] não merece o mais pequeno respeito a preciosa vida deste povo» . (7)
Os “gazes da CUF”, infringindo até as normas legais da época, são os responsáveis pela destruição das pequenas hortas, jardins e pomares de gente humilde, que os cultiva para ajuda do magro sustento familiar mas, também dos prédios urbanos que são agredidos por aquele flagelo, tornando o Barreiro uma terra negra e fumarenta que haveria de se tornar a sua imagem de marca durante décadas. O artigo do “Eco do Barreiro”, prossegue com a denúncia daquele problema que parece afectar gravemente a vida dos barreirenses.
«Nada escapa às rajadas devoradoras dos gazes da CUF. Morrem as plantas, morrem os frutos, morrem as flores, morre a própria terra que fica calcinada debaixo de tão densas nuvens de gaz e de veneno, e ninguém se apercebe e ninguém se comove por uma situação tão desesperada que está causando a desolação e a ruína de tantos milhares de pessoas!» (8)
A fim de acompanhar os problemas ambientais causados pelos fumos que chegavam a todo o lado e fomentavam um ambiente verdadeiramente doentio na população, a Câmara criou uma Comissão Municipal de Higiene que entrou em vigor em 1929. De tempos a tempos emitia pareceres, que pareciam cair em saco roto, nos quais se considerava o Barreiro como uma terra insalubre, devido à grande concentração industrial existente.
Um desses pareceres, datado de 1947, pedia providências contra as emanações de gases expelidos pelas fábricas da Companhia «as quais até provocam vómitos e náuseas aos seus habitantes» . (9)
Como a autarquia reconhece em 1948, não era só o centro da vila que era afectado mas até os bairros e freguesias limítrofes, pois não existiam zonas ajardinadas suficientemente defendidas da influência dos fumos da CUF «que sejam próprias para as crianças ou para os adultos.» (10).
No final da década de 50, o parecer sobre o Ante-Plano de Urbanização do Barreiro, refere que as indústrias químicas da CUF continuavam a libertar gases tóxicos que «arrastados pelos ventos do norte, tornam insalubre e tóxica toda a zona moderna da vila.» (11).
Os problemas ambientais terão continuidade nas décadas seguintes e permanecem ainda hoje, como uma das heranças mais negativas do processo de industrialização que, durante perto de um século marcou a vida e a paisagem no Barreiro.
Rosalina Carmona
1 - ALMEIDA, Ana Nunes de – A Fábrica e a família, Câmara Municipal do Barreiro, 2ª ed. 1998, pp.143
2 -AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15
3 -Idem
4 - AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15, fl.31
5 - Idem. fl. 107
6- “Um Olhar sobre o Barreiro”, I Série, nº2, Maio 1989, pp.30
7 - Idem, pp.31
8 - Id. Ibid.
9- Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), Comissão Municipal de Higiene, CMB/B/Q/04/, Cx. 2
10 -AMB, «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51,pp. 34
11- Arquivo do Ministério das Obras Públicas, «Parecer nº 2715 do Conselho Superior das Obras Públicas»
Num contexto de transformações profundas, em que o Barreiro se tornara um dos centros mais industrializados do país, a intensificação da produção fabril representou a ruptura definitiva com paisagem tradicional.
As actividades industriais da CUF fizeram-se sentir desde os primeiros tempos, transformando a paisagem e o ambiente por completo, num processo destrutivo que, para os padrões actuais, seria completamente inaceitável.
Logo em 1910 Veiga Beirão, amigo pessoal de Alfredo da Silva em visita às fábricas do Barreiro, dá-se conta dessas mudanças. Referindo-se às altas chaminés que agora marcam o novo perfil do Barreiro assinala o «odor horrível das emanações químicas que se espargem no ar…»(1) , provocadas pelo pulsar do gigantesco colosso industrial em permanente ebulição.
Na verdade nada voltará a ser como dantes na antiga vila piscatória e nem sequer o rio, com a sua variada fauna marítima escapa à destruição, provocada pelos líquidos e lamas resultantes dos fabricos químicos.
Se é certo que à época de instalação da CUF no Barreiro não existia ainda uma consciência ecológica clara, os efeitos da poluição eram contudo, particularmente visíveis e começavam a preocupar a Câmara Municipal.
Com efeito, 6 anos após a laboração da CUF a Comissão Executiva da Câmara, solicita ao Sub-delegado de Saúde do Barreiro, um parecer «sobre o fumo das diversas chaminés da Companhia União Fabril que se julga muito prejudicial para a saúde pública.» (2).
As preocupações com a saúde e com o ambiente ressaltam igualmente de um ofício do Centro Socialista do Barreiro, em que se pedem enérgicas providências «sobre o mal que está causando à vegetação e às pessoas que comem hortaliças, o ácido sulfúrico da Fábrica da União Fabril.» (3)
Na continuidade destes registos, encontramos em 11 de Maio de 1916, uma reclamação dos habitantes do Largo das Obras «por causa das águas dos poços deste sítio não estarem em condições de serem utilizadas para consumo, devido a infiltrações vindas da fábrica da Companhia União Fabril.» (4)
A expansão da CUF com o consequente aumento da poluição industrial, levantava as mais sérias reservas à Comissão Executiva da Câmara que, em 24 de Maio de 1917, enviou um protesto ao Administrador do concelho, reclamando contra a construção da «nova fábrica de sulfuretos da Companhia União Fabril, desta vila»(5) , por considerar que esta seria prejudicial à população do Barreiro.
“A Questão dos gazes da CUF” vai continuar na ordem do dia e encontra repercussões na imprensa local, nomeadamente no jornal “Eco do Barreiro” que, em Novembro de 1930 se refere aos prejuízos causados pela poluição originada pelas fábricas.
Numa entrevista ao “Eco do Barreiro”, Bento da Silva Fernandes, Tenente da GNR e Administrador do Concelho, reconhece a gravidade do problema e declara-se «o primeiro a condenar um mal que atinge esta laboriosa população e a própria Câmara Municipal, já se pôz à frente de um protesto, contra os prejuízos causados pelos gazes expelidos das chaminés da fábrica da Companhia União Fabril no Barreiro.» (6)
Num eloquente artigo intitulado “Bradar no deserto - Gazes da CUF”, aquele órgão de imprensa classificava o problema como um cataclismo e uma «autêntica guerra de gazes asfixiantes» que se abatera sobre a população do Barreiro, perante a completa indiferença do patrão da CUF, da sua administração e das «pessoas que dirigem a CUF [a quem] não merece o mais pequeno respeito a preciosa vida deste povo» . (7)
Os “gazes da CUF”, infringindo até as normas legais da época, são os responsáveis pela destruição das pequenas hortas, jardins e pomares de gente humilde, que os cultiva para ajuda do magro sustento familiar mas, também dos prédios urbanos que são agredidos por aquele flagelo, tornando o Barreiro uma terra negra e fumarenta que haveria de se tornar a sua imagem de marca durante décadas. O artigo do “Eco do Barreiro”, prossegue com a denúncia daquele problema que parece afectar gravemente a vida dos barreirenses.
«Nada escapa às rajadas devoradoras dos gazes da CUF. Morrem as plantas, morrem os frutos, morrem as flores, morre a própria terra que fica calcinada debaixo de tão densas nuvens de gaz e de veneno, e ninguém se apercebe e ninguém se comove por uma situação tão desesperada que está causando a desolação e a ruína de tantos milhares de pessoas!» (8)
A fim de acompanhar os problemas ambientais causados pelos fumos que chegavam a todo o lado e fomentavam um ambiente verdadeiramente doentio na população, a Câmara criou uma Comissão Municipal de Higiene que entrou em vigor em 1929. De tempos a tempos emitia pareceres, que pareciam cair em saco roto, nos quais se considerava o Barreiro como uma terra insalubre, devido à grande concentração industrial existente.
Um desses pareceres, datado de 1947, pedia providências contra as emanações de gases expelidos pelas fábricas da Companhia «as quais até provocam vómitos e náuseas aos seus habitantes» . (9)
Como a autarquia reconhece em 1948, não era só o centro da vila que era afectado mas até os bairros e freguesias limítrofes, pois não existiam zonas ajardinadas suficientemente defendidas da influência dos fumos da CUF «que sejam próprias para as crianças ou para os adultos.» (10).
No final da década de 50, o parecer sobre o Ante-Plano de Urbanização do Barreiro, refere que as indústrias químicas da CUF continuavam a libertar gases tóxicos que «arrastados pelos ventos do norte, tornam insalubre e tóxica toda a zona moderna da vila.» (11).
Os problemas ambientais terão continuidade nas décadas seguintes e permanecem ainda hoje, como uma das heranças mais negativas do processo de industrialização que, durante perto de um século marcou a vida e a paisagem no Barreiro.
Rosalina Carmona
1 - ALMEIDA, Ana Nunes de – A Fábrica e a família, Câmara Municipal do Barreiro, 2ª ed. 1998, pp.143
2 -AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15
3 -Idem
4 - AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15, fl.31
5 - Idem. fl. 107
6- “Um Olhar sobre o Barreiro”, I Série, nº2, Maio 1989, pp.30
7 - Idem, pp.31
8 - Id. Ibid.
9- Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), Comissão Municipal de Higiene, CMB/B/Q/04/, Cx. 2
10 -AMB, «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51,pp. 34
11- Arquivo do Ministério das Obras Públicas, «Parecer nº 2715 do Conselho Superior das Obras Públicas»















