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Quotidianos

A Nova EsquerdaPor Nuno Canta
Montijo

A nova esquerda, a esquerda do nosso tempo, continua empenhada na justiça social, hoje mais ameaçada do que nunca, ela reconhece as falhas do mercado livre, em particular no que respeita à redistribuição do rendimento, e defende um Estado forte e ativo, embora reconheça hoje que os mercados desempenham um papel indispensável na afetação dos recursos.

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A Nova Esquerda Por Nuno Canta Montijo

Por Jornal Rostos

Sou um socialista, um humanista e um democrata, um político com convicções profundas na esquerda, uma esquerda democrática e progressista. Assumimos a tradição republicana, as correntes do humanismo, as experiências do socialismo e os valores da nova esquerda democrática.
Ser de esquerda é estar disponível para contrariar a hierarquia social em benefício da justiça social. Por forma a cumprir este desígnio a esquerda tem mudado com a sociedade ao longo dos tempos. Assim, os conceitos de esquerda e de direita continuam centrais no entendimento da política moderna
A nova esquerda, a esquerda do nosso tempo, continua empenhada na justiça social, hoje mais ameaçada do que nunca, ela reconhece as falhas do mercado livre, em particular no que respeita à redistribuição do rendimento, e defende um Estado forte e ativo, embora reconheça hoje que os mercados desempenham um papel indispensável na afetação dos recursos.
Os socialistas democráticos continuam a ter como base política os trabalhadores e a classe média, e ainda são caracterizados pela concertação social entre a classe capitalista e a trabalhadora, e pela ação compensatória do Estado em relação à redistribuição do rendimento, mas deixam de pensar no Estado como produtor de bens e serviços não essenciais.
Para as mulheres e homens da nova esquerda, com as quais me identifico, o Estado deixa de desempenhar o papel principal na atividade económica, como sempre defenderam os da velha esquerda, e reconhecem que essa função cabe ao mercado. Por isso afirmamos que o papel essencial do Estado é o de garantir um mercado competitivo, com o qual as empresas privadas concordam mas não praticam. Ao mesmo tempo afirmamos que o mercado tem limitações não só na distribuição dos rendimentos, mas também, na garantida da estabilidade económica e na promoção do desenvolvimento. Assim, para nós, o Estado não tem um papel secundário – o menor possível – como defende a direita, mas um papel complementar e estratégico no plano económico, e um papel central na regulação do mercado e da própria sociedade civil.
Enquanto a reforma do Estado não tem sentido para a velha esquerda, que vê na ação reformadora apenas uma ameaça, e para a direita só tem sentido a redução do tamanho do Estado, o dito Estado mínimo, para os que defendem a esquerda progressista como nós, reformar o Estado significa: 1) reconstruí-lo, isto é, recuperar as suas finanças, desenvolver uma administração pública eficiente e desburocratizada e criar um núcleo estratégico de decisão; 2) redesenhar a sua esfera de atuação, pela transferência para o sector privado das empresas públicas produtoras de bens e serviços não essenciais; 3) aprofundar a democracia, fortalecer as instituições democráticas e ao mesmo tempo promover a democratização da sociedade civil.
Uma preocupação fundamental para todos nós é combater a captura do Estado pelos capitalistas e pelos burocratas, no respeito pelos valores republicanos, e na luta sem tréguas à corrupção. Consideramos mesmo que, na reforma do Estado, o objetivo de garantir o interesse público dos cidadãos de modo a que os bens públicos não sejam capturados pelos corruptos é tão importante como o objetivo de tronar o Estado mais eficaz e eficiente.
A nova esquerda está comprometida com a equidade económica pela redistribuição dos rendimentos, está consciente da necessidade de reformar o Estado para compensar as distorções do mercado, embora esteja empenhada em promover a competição do mercado, que, quando combinada com a solidariedade social e a proteção ambiental, estimula a iniciativa e eficiência das atividades económicas sem agravar as injustiças sociais.
Portanto, existe uma nova esquerda, uma esquerda moderna e democrática, a esquerda defendida pelo Partido Socialista, que não se confunde com a velha esquerda burocrática nem com a direita ao serviço do capital, centrada no mercado e na eliminação de todas as barreiras ao mercado livre. Uma esquerda que entende que o único sistema económico viável é o capitalismo. Mas, um capitalismo regulado pelo Estado, numa regulação melhor do que regulam os capitalistas.
A nova esquerda quer reformar o Estado, atribuir ao mercado e ao individuo papeis mais relevantes, pelo socialismo moderno, porque o socialismo clássico era burocrático, enquanto o moderno faz a crítica da burocracia, uma esquerda mais liberal porque, ao contrário da velha tese da esquerda estatista, o liberalismo não é o inimigo, entende-o como um avanço na história da humanidade que deve ser preservado. Foi através dele que os direitos civis e os direitos políticos foram conquistados. Tal como foi com o socialismo se garantiram os direitos sociais. Por isso, é necessário conjugar os direitos civis e os direitos políticos com os direitos sociais, ao socialismo é necessário associar o liberalismo e propor uma nova esquerda, o socialismo democrático. É, na realidade, o compromisso entre o socialismo e o liberalismo que permite a política adequada à manutenção do Estado social.
Num momento de grande incerteza económica, social e política é, no meu entender, de uma responsabilidade redobrada afirmar as nossas convicções e valores. Lutamos na política, nas instituições e na sociedade pela nova esquerda, para uma sociedade mais humanizada e justa, em que a liberdade coexista com a igualdade. É esta linha ideológica, própria dos socialistas, própria da nova esquerda, que propomos para ultrapassar a crise e enfrentar os desafios do desenvolvimento no concelho do Montijo.

NUNO CANTA, 2012

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