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Quotidianos

Labregos, Pategos, Borregos, Figurantes e FigurõesPor Fernando A. Almeida Reis

Longe vai o tempo do “S” de “Saber Servir” e “Salazar”, do “Sim” e “Sim, Senhor Presidente”.
Era assim o “Portugal Profundo” de outros tempos, para lá das escarpadas montanhas levantadas e das eternas planícies estendidas, qual muro de Berlim a separar os Labregos e os Pategos dos Borregos, dos Figurantes e Figurões, faustosa civilização dos presumidos, convencidos e vaidosos citadinos.

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Labregos, Pategos, Borregos, Figurantes e Figurões Por Fernando A. Almeida Reis

Por Jornal Rostos

Longe vai o tempo em que os Labregos, escondidos numa ignorância vergonhosa e envergonhada, embarcavam a penantes e calcantes, manhã cedo ainda longe de romper o dia, para aplaudirem Sua Excelência o Presidente do Conselho, de passagem, nas suas saídas mais longínquas, ali prós lados da Batalha ou Alcobaça, que outras mais distantes se lhe não conheciam.
Vaidosos, nas suas brancas faixas de cruzados onde se estampava a rubra Cruz de Cristo, enquadrados pelos esbirros da União Nacional que mandavam no rebanho de mansos cordeiros de olhos fitos no solo, que olhar mais alto e mais além lhes estava vedado, lá iam acenando, com pompa e circunstância, as bandeirinhas verde-rubro à passagem de Sua Excelência, que nem sequer viam, escondido que andava sempre sob pesado capote cinzento – tão cinzento como a sua tenebrosa política – e oculto o cenho hitleriano sob a sombra do chapéu preto – tão assombrosa como a rede dos “bufos” que os seus esbirros pidescos criaram. E nem precisavam estudar a lição, que a mesma estava decorada. Bastava gritar, à passagem do “funéreo” mercedes preto e blindado, “Viva Salazar! Viva Salazar!”
Longe vai o tempo em que os Borregos, ensinados e obrigados a balir sempre a mesma frase “Sim, Senhor Presidente!”, calcorreavam os tais caminhos enlameados, caísse grossa chuva ou soprasse agreste vento, para irem “deitar” o voto, a mando do senhor doutor ou barão, fulano de tal, lá na freguesia. E sempre o mesmo voto! Dormisse já, o votante, o sono eterno à sombra do cipreste, ou andasse a fazer pela vida nas longínquas africas ou distantes brasis. E nem precisavam de fazer a cruz que a mesma estava feita!
Longe vai o tempo do “S” de “Saber Servir” e “Salazar”, do “Sim” e “Sim, Senhor Presidente”.
Era assim o “Portugal Profundo” de outros tempos, para lá das escarpadas montanhas levantadas e das eternas planícies estendidas, qual muro de Berlim a separar os Labregos e os Pategos dos Borregos, dos Figurantes e Figurões, faustosa civilização dos presumidos, convencidos e vaidosos citadinos.
Sopram agora novos ventos que trouxeram outros cheiros, prometidos bons aromas que falharam e não tardaram em transformar-se em maus odores e piores sabores, para os Labregos e Pategos dos anteriores tempos que iguais a estes são, mudando apenas a cor e a consistência do produto que perfuma, que o mau cheiro é igual.
Dos Labregos e Pategos de outros tempos, do “S” de “Servir Salazar” e do “Sim, Senhor Presidente”, ficaram os Borregos que já nem precisam de calcorrear os tais caminhos enlameados, faça chuva ou mesmo vento, que céleres correm, sobre quatro rodas, para outras terras que nem sequer são as suas, para fazer o tal número estatístico que fará crescer o barómetro da popularidade do tal candidato político a qualquer lugar político, também. Políticos, prometedores de muitas coisas, que nunca cumprem, e ganhadores de muitas mais, que não prometeram mas nunca deixam de cumprir em benefício próprio!
Os Figurões, que aos Borregos dão o nome mais pomposo de Figurantes, incham o peito de vaidade, que nem precisa ter medalhas, enrijam a crista de garnisé saído de qualquer galinheiro recente, chamado universidade, onde o rubro sangue lateja, aguçam a unha sempre pronta a entrar no bolso do contribuinte, que já nem precisa de ser desprevenido e cantam aos quatro ventos as vitórias que do “S” de “Servir Salazar” e do “Sim, Senhor Presidente” que ora se transformou em “Somos Servos, Sim Senhora”, e continuam compondo, no poleiro do “S” encantatório, melodias melodramáticas de Sangue, Suor e Sofrimento resultante em fome, tal cópia do modelo ditatorial do “S” do Senhor defunto ditador.

Fernando A. Almeida Reis

© copyright 2012 Fernando A. Almeida Reis, ortónimo de Alvaro Giesta e de Miguel Faia, todos os direitos reservados para o Autor e Jornal Rostos. Não pode ser dado qualquer uso comercial ao texto, sem a devida permissão do autor

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