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Quotidianos

ResignaçãoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

De modo que a resignação, agora entendida como um preceito quase evangélico, graças à atitude de Bento XVI, deveria fazer escola, sobretudo para quem se reclama de bom cristão, exceto no voto de pobreza: resignai, resignai, resignai.
Não porque achareis um tesouro nos Céus.
Mas porque já chega!

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Resignação Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Eis uma palavra que anda nas bocas do Mundo, pelo anúncio da resignação do Papa Bento XVI.
Decisão histórica, porquanto, ao que se me consta, a última resignação de um Papa foi para pôr fim ao Cisma do Ocidente, já lá vão seis séculos.
Dir-se-ia que nada mais natural, uma vez que os Bispos resignam aos 75 anos, e o Papa é o Bispo dos Bispos. Mas a questão tem outros contornos, se considerarmos que as nomeações vitalícias têm estes problemas: quando devem ter fim? Ou será que o único fim é a extinção biológica?
Já o tenebroso Baby Doc, o filho de muito mais sinistro François Duvalier, o “Papa Doc” do Haiti, quando forçado a abdicar, argumentou candidamente (a inteligência não era o seu forte) que não podia ser demitido, porque era presidente vitalício…
Outros casos há de hereditariedade de e provimento vitalício nas funções, como a Síria dos El Hassad à Coreia do Norte, que já vai na terceira geração, na herança de Kim Il Sung.
Outro é o das monarquias, em que o rei, por princípio, só é substituído quando morre, acarretando por vezes situações complicadas, de que é bom exemplo, entre nós, as regências de D. Pedro II, em nome de seu irmão D. Afonso VI, ou de D. Pedro IV, em nome de sua mãe D. Maria I, ambos declarados psiquicamente incapazes, mas em deixarem de ser, nominalmente, os monarcas.
Lei geral e universal? Nem por isso. Na Holanda, neste século XX, duas rainhas resignaram, Guilhermina e Juliana, abdicaram nas herdeiras, as suas filhas, apenas porque o acharam conveniente. Ao contrário da rainha Vitória de Inglaterra, ou da sua trineta Isabel II, que pareceram ou parecem não ter grande confiança nos respetivos herdeiros do trono…
Resignação ou abdicação, tanto faz: é uma atitude de lucidez, que só honra quem a toma. Sobretudo quando se trata de uma decisão pessoal e voluntária.
Mas outra resignação existe, e essa, de tão badalada e vulgarizada, parece já não incomodar ninguém.
É a resignação do povo português a todos os sacrifícios que lhe são impostos, e não parecem ter fim à vista. Sacrifícios tanto mais pesados quanto são exigidos a quem em nada contribuiu para a situação atual.
Porque os verdadeiros fautores da crise andam por aí, na dança dos gestores, dos processos infindáveis, e, quanto a resignar, ou apenas apertar um pouco o cinto, nada.
E, pior, há quem recomende aos portugueses a resignação dos sem-abrigo; não decerto a todos os portugueses, mas apenas, parafraseando Franz Fanon, aos malditos da terra, que por azar são a maioria.
Mas, ao que parece, a resignação é como a tintura de iodo: é apenas para uso externo!
De modo que a resignação, agora entendida como um preceito quase evangélico, graças à atitude de Bento XVI, deveria fazer escola, sobretudo para quem se reclama de bom cristão, exceto no voto de pobreza: resignai, resignai, resignai.
Não porque achareis um tesouro nos Céus.
Mas porque já chega!

Nuno Santa Clara

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