Os «mazar(r)ulhos»Por Manuel Costa
Barreiro

Por Jornal Rostos
Nos idos de sessenta do passado século, fiz parte dos trabalhadores efectivos da Oficina de Mecânica da Empresa que dava, ao tempo, pelo nome de Companhia União Fabril. Situavam-se essas instalações onde hoje se encontram os armazéns do antigo “Feira Nova”.
Ao chegar de Angola e depois de 2 anos a “dar o corpo ao manifesto” por um Portugal “prolongado do Minho a Timor”, regressei à citada Oficina para continuar o percurso que, na grande maioria dos casos, só terminaria quando chegasse a idade da reforma.
Este preâmbulo foi necessário para agora trazer à colação um colega meu que vou identificar como AV, mais velho do que eu, tanto na idade como na função que desempenhava. E qual o interesse? É que AV, oriundo da cidade de Setúbal, falava como os nascidos em algumas zonas na Capital de Distrito e pronunciava as palavras com um erre acrescentando-lhe outro. Por exemplo: “mazarulho” soava na sua boca como “mazarrulho”.
Ao ser-lhe perguntado o que era isso, ele explicava que tudo o que lhe parecia, grosseiro, bronco, boçal, feio, tosco e rude, ele alcunhava de “mazarrulho”. E a curiosidade, para nosso descanso, é que valia o epíteto tanto para as peças que se produziam na Oficina, como para operários, chefes e engenheiros que ali trabalhavam.
Nestes tempos de cólera em que vivemos, não é uma, nem duas, nem três, as vezes que me lembro de AV e da palavra “mazarrulho” para classificar, o comportamento miserável destes lacaios do cifrão, vendilhões das esperanças que milhões de desesperados por uma governação de lesa-Pátria, repleta de casos e casos de Polícia Judiciária, depositaram neles.
Terão estes como objectivo primordial fazer-nos ter saudades dos outros e quiçá ainda mais para trás, para os anos de chumbo do salazarismo?
Que Deus me perdoe, se estou em pecado.
Manuel Costa














