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Quotidianos

Daqueles que por obras valerosas…Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Se Lenine ou Chavez tivessem morrido no Barreiro, não poderiam ter sido embalsamados, conservados e expostos.
Teriam ido para a terra ou para o nicho aeróbio, porque novas concessões perpétuas não estão previstas.

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Daqueles que por obras valerosas… Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Assim escreveu Camões, literalmente. Liberdade poética ou ortografia da época, é questão menor, sobretudo nestes tempos conturbados de Acordos Ortográficos que parecem ter passado ao lado de muita coisa – sobretudo dessa coisa que, no dizer de outro grande poeta, Fernando Pessoa, era a sua Pátria: a Língua Portuguesa.
Os versos de Camões, se não me falha a memória, eram assim:
Aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando.
Na sua visão épica da História, os grandes vultos, quer da Antiguidade Clássica, quer da Epopeia Portuguesa, tinham escapado, por força dos seus grandes feitos, ao poder destruidor da Morte.
Não está em causa a crença na vida do Além. Apenas a memória histórica, aquela que distingue uma grande figura de um anónimo cidadão.
Estátuas, bustos, nomes de rua, placas evocativas, tudo é bom para lutar contra a tendência natural para o esquecimento.
Nada de novo: desde os primórdios da nossa memória, ainda não escrita, mas preservada por monumentos megalíticos, ou por modestas sepulturas também ricas em informação, existe uma constante luta contra a aniquilação que a Morte representa.
Uns vêm aqui a origem das religiões; outros, apenas uma demonstração de um espírito primitivo, hoje ultrapassado.
Mas o concreto está no que fazer dos restos mortais dessas grandes figuras.
Durante séculos, depois das batalhas, o destino dos soldados anónimos era a vala comum, e o dos marinheiros era serem lançados ao mar, com um peso (normalmente uma bala de canhão) amarrada aos pés.
Exceções houve. O Almirante Horatio Nelson, morto na batalha de Trafalgar, foi conservado em álcool (melhor dizendo, em aguardente), e levado para Londres, onde lhe fizeram funerais nacionais.
Além de se ter da lei da Morte libertado, o seu corpo foi objeto de tratamento especial.
Mas não só de heróis guerreiros. A União Soviética entendeu por bem mandar embalsamar o corpo de Vladimir Ilich Ulianov, mais conhecido por Lenine, e depositá-lo num mausoléu expressamente construído na Praça Vermelha, no centro de Moscovo. Ainda hoje lá está, como local de peregrinação, ou de mera curiosidade.
Vêm agora o governo da Venezuela anunciar que o corpo de Hugo Chavez será embalsamado e exposto ao povo, para que lhe possam ser prestadas as devidas homenagens, talvez a título perpétuo.
Transpondo esta questão do macrocosmos para o microcosmos, ou seja de grandes países para um pequeno Concelho, uma conclusão se pode tirar.
Se Lenine ou Chavez tivessem morrido no Barreiro, não poderiam ter sido embalsamados, conservados e expostos.
Teriam ido para a terra ou para o nicho aeróbio, porque novas concessões perpétuas não estão previstas.
Naturalmente se teriam, da mesma forma, da lei da Morte libertado, mas não se saberia em que sítio concreto poderiam ser homenageados; talvez numa avenida de um bairro novo, ou numa praça rebatizada de um bairro antigo.
Mas o que teriam esses locais, de facto, a ver com eles?

Nuno Santa Clara

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