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Quotidianos

A CAVERNA – IIIPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Pois bem, nada melhor que tirar um esqueleto do armário e exibi-lo na praça pública. E de forma que a sua sombra ficasse bem projetada em fundo apropriado. E assim se fez.
O interessante é que o teatro de sombras resultou. Cantou vitória a Oposição – este já está! Suspiraram de alívio alguns próximos – isto já passou!

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A CAVERNA – III Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Para os meus (raros!) leitores, este título será estranho. Caverna III, porquê? Pois se é o primeiro artigo com este título!
E é mesmo. Mas outros houve que escreveram notáveis obras sobre o tema da caverna.
Em primeiro lugar, Platão. Este ilustre filósofo, um dos Pais da nossa cultura, na sua obra República, imaginou uma caverna onde estariam presos uns tantos escravos, que do mundo exterior apenas tinham a noção das sombras dos que passavam no exterior, projetadas nas paredes da caverna, e do som das suas vozes. Para eles, o mundo era isso: sombras e sons. Imaginou ainda que um dos escravos se evadia, tomava conhecimento do mundo exterior, e voltava para contar a verdade. Seria naturalmente desacreditado, maltratado, mesmo morto por negar o que, para os detidos, era a realidade.
Saramago, de certo modo, retoma este tema no seu romance A Caverna. Os seus heróis penetram no subsolo da Cidade e deparam com um cenário aterrador. Fogem, e guardam para si o segredo.
Estas duas divagações, em modo de fantasia, têm uma atualidade gritante. O recurso ao teatro de sombras não é exclusivo das sombras chinesas, com que nos entretinham na infância: é uma prática constante, só que mais sofisticada.
Daí a Caverna III, declarando desde já que não me passa pela cabeça ombrear com Platão, infinitamente mais sábio do que eu, ou com José Saramago, incomparavelmente melhor escritor do que eu. Apenas me socorri da mesma inspiração.
O caso do Ministro Miguel Relvas surge como um teatro de sombras. E nós, os livres escravos da televisão, olhamos para as notícias – e até parecem a realidade.
Assim, o Ministro teria pedido a demissão na sequência do caso da licenciatura por equivalência. Já me referi a esse caso, com alguma ironia, num artigo inspirado numa figura criada por outro grande escritor, Jorge Amado: Jaime Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso, com o curso tirado… enfim, de forma pouco ortodoxa.
Como glosado foi o tema, dentro e fora do País, em inúmeras anedotas, trocadilhos e piadas, que não pareceram beliscar a figura pública em causa. Olimpicamente, não tomou conhecimento da contestação. E, politicamente, até teria razão: tratava-se de um fait-divers, cuja influência na governação bem podia ser nula.
E, ao fim e ao cabo, estamos tão habituados a coisas destas que já ninguém se escandaliza…
Mas a figura deste Ministro estava a ficar incómoda, por diversas questões polémicas. As autarquias, a TAP, a Ongoing, as privatizações, etc., etc. A contestação da sua figura crescia dentro do seu próprio partido. E, inexoravelmente, as eleições aproximam-se.
Pois bem, nada melhor que tirar um esqueleto do armário e exibi-lo na praça pública. E de forma que a sua sombra ficasse bem projetada em fundo apropriado. E assim se fez.
O interessante é que o teatro de sombras resultou. Cantou vitória a Oposição – este já está! Suspiraram de alívio alguns próximos – isto já passou!
Terá o Governo saído fragilizado, como se disse? Tanto quanto fica fragilizado um paciente a quem extraem um quisto.
O Ministro da Educação, o encerrador de escolas e despedidor de professores, saiu com a imagem recuperada e aura de decência.
O Primeiro-Ministro saiu com a dignidade de alguém que sacrificou a amizade à República (no melhor sentido da palavra).
E nós saímos aliviados, de acordo com o velho aforismo “morto o bicho, acabou a peçonha”.
Mas será mesmo assim?
Por mim, vejo-me dividido face à sabedoria dos clássicos.
Platão sugere-me que me submeta à razão da maioria, ou seja, à sabedoria dos que se fiam nas sombras.
Bismarck disse que, em política, o que parece, é.
E o que me parece é que as figuras reais devem prevalecer sobre as sombras.

Nuno Santa Clara

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