A Roda do Hamster!Por José Encarnação
Barreiro
Quer à esquerda quer à direita há quem tenha opiniões formadas a favor e contra a permanência.
Sou dos que rejeitam, como alguns defendem, que esta é uma matéria demasiado técnica e que, por tal razão, deveria ser reservada aos estudiosos e entendidos.

Por Jornal Rostos
Quase todos nós já nos demos conta de como é a vida de um Hamster. Já não bastava o bichinho viver aprisionado numa gaiola com ainda por cima lhe colocaram lá uma roda que não leva a lado nenhum. Apenas gira e o hamster, aparentemente, sente-se feliz.
É facto que nunca ninguém se deu ao trabalho de saber (perguntar seria o mais adequado mas o ratito não fala) se o animal se sente mesmo feliz naquele frenesim de andar à roda. Será que aquilo é alienação ou divertimento? Condenação ou exercício?
Também já devemos ter reparado que o hamster, de quando em vez, sai da roda talvez para descansar mas que a ela retorna passado esse repouso.
Qualquer veterinário conseguirá explicar, técnica e cientificamente, porque é que o hamster funciona assim e não lhe passa pela cabeça revoltar-se e exigir a sua libertação da gaiola e a substituição da roda por um equipamento bem mais estimulante.
Colocar as coisas nestes termos parece um perfeito absurdo. O hamster não é humano, não tem sentimentos (?) logo não tem capacidade nem autonomia para ter pensamento próprio.
Em parte aceito isso talvez até por falta de conhecimentos que me permitam concordar ou discordar.
Mas, esta imagem –metáfora- leva-me à questão dos humanos e dos sérios e vastíssimos problemas que todos os dias os confrontam.
Porque razão é que, em grande número de casos, os humanos funcionam e se comportam como o hamster perante a gaiola e perante a roda?
A chamada troika, entidade omnipresente e omnipotente que, supostamente, veio em nosso auxílio e para nos “resgatar”, ofereceu-nos a gaiola devidamente equipada com uma gigantesca roda colectiva sem nunca ter dito que, após nos termos portado bem e pago as actuais dividas teriamos direito a sair da gaiola e deixar de andar à roda.
É facto que o hamster não tem nem vontade nem pensamento próprios. E os humanos? Qual será o papel da iletracia e do medo (o “medo” sempre meteu medo), para que nós humanos não sejamos capazes de romper o ciclo e o círculo vicioso em que nos querem aporreados?
No nosso caso a roda é representada pelo chamado Memorando de Entendimento e o Euro é o eixo da roda.
A discussão pelo que se vê na comunicação social, invariavelmente, gira (roda) em torno de se saber como e onde cortar os famosos 4 mil milhões de uma forma permanente e estrural nas despesas do estado, a que se juntam pouco mais de mil milhões que o malandro do Tribunal Constitucional resolveu, por óbvia má vontade e clara má fé, juntar.
Porque é que muitos não páram um pouco para perguntar se é mesmo verdade que isso é indispensável e se não haverá um caminho diferente para resgatar Portugal da usura.
Até no caso da nora é necessário vendar o burro para ele não entontecer e, por essa razão, deixar de realizar o seu trabalho com eficácia.
Suponhamos um doente a quem foi feito um diagnóstico de doença muito grave. Que faz esse doente quando chega à consulta após receber a triste e dolorosa notícia? Parece claro que irá perguntar ao médico qual a esperança que pode ter em se salvar e o que precisa fazer para tal.
Há cerca de três anos fui “cliente” do IPO em Lisboa. Ao longo de algumas consultas fui estabelecendo um diálogo bastante interessante com a minha médica, mulher já madura e de longa convivência com o cancro. Numa ocasião confessou-me: “ aquilo que mais destroça é quando um doente se vira para mim, emocionado, e me diz: doutora eu não quero morrer.”
Pois. A isso ela não consegue responder com precisão a não ser dizendo, carinhosamante, que afinal todos temos de morrer. Gostemos ou não.
Se perguntarmos a uma mulher se deseja ser amputada face a um cancro da mama é óbvio que ela responderá que não deseja mas, se isso for a solução para sobreviver, que assim seja.
Trouxe estes pensamentos à superfície para fazer uma, ainda que ligeiríssima, abordagem à questão do Memorando de Entendimento, aos cortes no Estado Social e à aparente falta de alternativas ao empobrecimento do país.
A par disso coloco também, pela sua actualidade, a questão do Euro.
Sair? Ficar? Como e porquê? Que consequências.
O debate não é fácil mas é imprescindivel que se faça.
Os que aceitam a lógica da gaiola e da roda do hamster têm a vida facilitada.
Para eles sair não é questão que se coloque e tal representaria uma tragédia. Mais. Seria um erro tremendo por o ignorante povinho a debater tal questão. Quem viu a referência, talvez pouco cuidada e pensada, feita pelo professor João Salgueiro num recente debate, talvez entenda melhor o que procuro dizer.
Já não nos bastava ficarmos reféns do Tribunal Constitucional para defender (?) o estado democrático e de direito em que vivemos (nem me atrevo a falar na natureza do regime) senão ainda nos vermos privados de exercer um dos mais emblemáticos direitos da Democracia: Discutir e votar.
Ou seja: Para alguns é perigoso e trágico o povo ser chamado a pronunciar-se mas não é perigoso nem trágico o país continuar neste caminho de destruição.
Para quem pensa que o fascismo social está assim tão longínquo parece aconselhável maior cautela e mais ponderação.
Aos que buscam alternativas de facto e não meros remendos, o caminho apresenta-se bem mais difícil.
No caso do Euro, por exemplo, a linha de fronteira não está na divisão simplista esquerda/direita e pode ser perverso querer a discussão afunilada apenas para o de se saber se se fica ou se se sai.
Quer à esquerda quer à direita há quem tenha opiniões formadas a favor e contra a permanência.
Sou dos que rejeitam, como alguns defendem, que esta é uma matéria demasiado técnica e que, por tal razão, deveria ser reservada aos estudiosos e entendidos.
Rejeito que me digam que é perigoso fazer esta discussão porque isso iria assustar os mercados. Faz lembrar aquela mãe que ameaça o filho com o papão se ele não comer a sopa toda.
Rejeito uma discussão e um debate, ou até a sua ausência, com base no medo e na insegurança das pessoas.
Rejeito que o povo só “sirva” para escolher os actores da peça e que não tenha voz activa no argumento e no guião da mesma.
No quadro que vivemos há pelo menos uma coisa que eu sei: Os que aceitaram, dócil e acriticamente este caminho, conduziram Portugal ao maior drama da sua história como nação centenária e independente. E, mesmo tendo mais dúvidas do que certezas, sou dos que pensam que se não invertermos o caminho estaremos preante o maior retocesso civilizacional de que há memória e a uma grave e profunda ruptura social.
Evitar fazer esta discussão, evitar parar a roda do hamster é um não caminho.
Aos democratas colocar-se-á sempre a mesma e velha questão: Ou se tenta controlar a roda e as consequências daí decorrentes ou seremos esmagados por ela sem poder sequer minimizar os danos colaterais.
José Encarnação
(apoiante do Congresso Democrático das Alternativas)
Barreiro, 17 de Abril de 2013














