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Quotidianos

CarnívorosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Tivemos uma época em que era de bom-tom ter algumas preocupações sociais. Mesmo os regimes totalitários se arrogavam de ter uma política virada para os mais débeis. Exemplo disso era aquele slogan “enquanto houver um português sem pão, a revolução continua” (“revolução” do 28 de maio, lembre-se). Cuidados médicos, escolaridade mínima, assistência social, tudo em pequena quantidade, como convém, mas anunciado com grandes paragonas.

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Carnívoros Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Aprendemos nas Ciências Naturais (agora crismadas de Estudo do Meio) que, dentro da classe dos mamíferos, havia a ordem dos carnívoros, animais dotados de garras, dentição completa, caninos desenvolvidos, molares capazes de triturar carne e ossos, enfim, criaturas destinadas a perseguir, caçar, matar, devorar outros animais.
Não é razão para daí atribuir aos carnívoros uma imagem negativa: o Homem faz o mesmo, com a diferença que também o faz por desporto, e não apenas por necessidade.
Estes animais sempre impressionaram o Homem, pela sua imagem de força e poder. Leões, tigres, leopardos, ursos, foram aplicados nos brasões de famílias e cidades, precisamente por essas características. O leão de Inglaterra, ou o urso de Berlim ou de Madrid, são bons exemplos.
Um dos romances mais interessantes do século XX foi precisamente O Leopardo, de Giuseppe Tomasi de Lampedusa (Il Gattopardo, no original). Narra a decadência de uma ilustre família aristocrática do sul da Itália, face á ascensão da classe burguesa endinheirada. Esse romance deu origem a um filme com o mesmo nome, uma verdadeira obra-prima do cinema, sob a direção do realizador Luchino Visconti.
Tomasi de Lampedusa, aristocrata ele mesmo, tinha bom conhecimento da diminuição da importância do papel da nobreza na sociedade europeia do século XIX, e não só por efeito da Revolução Francesa. Era um fenómeno progressivo, iniciado com a constituição de Estado Moderno e com a libertação dos camponeses e operários.
Esta libertação teve um efeito perverso: se os senhores tinham um dever moral de proteger os seus servos (obrigação que remontava à Idade Média), quando essa ligação se quebrou deixaram de ter esse dever; e, para a nova classe burguesa, qualquer obrigação desse tipo era um absurdo.
De certo modo, algo de semelhante se passou com a abolição da escravatura na Inglaterra. Quando os donos dos escravos se viram compelidos a libertá-los, e a ter de pagar um salário, simplesmente abandonaram-nos, e praticamente morreram todos de fome.
Mas Lampedusa tinha também conhecimento da falta de escrúpulos da classe burguesa em ascensão.
Segundo ele, predadores eram todos, nobres ou burgueses; simplesmente, tinha passado a época dos leões e leopardos, e chegado a era dos chacais e das hienas. Ou seja, o fim das grandes e nobres feras, que até deixavam restos, e o início do primado daqueles que roeriam tudo até ao tutano.
Fábula tremenda esta. Mas o pior é que o fenómeno continua.
Tivemos uma época em que era de bom-tom ter algumas preocupações sociais. Mesmo os regimes totalitários se arrogavam de ter uma política virada para os mais débeis. Exemplo disso era aquele slogan “enquanto houver um português sem pão, a revolução continua” (“revolução” do 28 de maio, lembre-se). Cuidados médicos, escolaridade mínima, assistência social, tudo em pequena quantidade, como convém, mas anunciado com grandes paragonas.
E agora? No ambiente de revanchismo em que vivemos, a fúria destruidora parece não distinguir limites. Honesto, só aquele milionário americano que disse: “isto é uma guerra dos ricos contra os pobres – e os ricos estão a ganhar”.
Daí as fissuras dentro do sistema. É que, como Tomasi de Lampedusa, todos são predadores – mas há, de um lado, leões e leopardos, e de outro chacais e hienas.
As feras nobres conservam obrigações morais, como a tradição de solidariedade ou a doutrina social da igreja; mas os necrófagos não têm tais pruridos.
Donde o interesse de Il Gattopardo, em livro e/ou em filme.
É pela sua atualidade.

Nuno Santa Clara

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