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Quotidianos

O povo eleitoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

O “eleito” significa aqui “escolhido”, por desígnios da Divina Providência, e não como resultado de humanas eleições, cuja essência prosaica não se compara com um misterioso Destino, para além da compreensão dos homens.

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O povo eleito Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Segundo a Bíblia, o povo eleito era o que hoje disputa o território da Palestina, seu por direito divino (dizem eles); eleito por ter sido escolhido por Deus, não vá pensar-se que por resultado de algumas eleições.
Também entre nós houve (ainda haverá?) quem nos considere um povo eleito; assim dizia um hino religioso que nos classificava como “entre todos escolhido, para o povo do Senhor”.
O “eleito” significa aqui “escolhido”, por desígnios da Divina Providência, e não como resultado de humanas eleições, cuja essência prosaica não se compara com um misterioso Destino, para além da compreensão dos homens.
Hitler considerava-se escolhido por Deus para levar o povo alemão aos píncaros da glória, da prosperidade, do domínio universal. Dentro da explicação transcendente desta missão sobrenatural, talvez tenha falhado por um pecado original: chegou ao poder por via eleitoral, logo pactuando com o falível plebiscito de míseros eleitores. Os adeptos dos destinos místicos decerto compreenderão que tão grande pecado merecia castigo.
Recentemente, um dos mais importantes (se não o mais importante) dos nossos governantes afirmou, com uma ponta de orgulho, que não havia sido eleito.
Isto deixa-nos na dúvida: será que se orgulhava de ter sido provido por uma seleção exaustiva, tipo concurso público, após vencer múltiplas barreiras? Ou se orgulhava, ainda mais legitimamente, de ter sido escolhido pela Divina Providência?
Pessoalmente, inclino-me para a segunda hipótese.
Vencer obstáculos, distinguir-se em exames, ganhar concursos, é bom; mas não concede aquela aura mística que faz varrer todas as dúvidas, substituindo-as por certezas – ainda que essas certezas sejam desmentidas pela prática.
Salazar compreendia isso bem; por isso, na restauração dos célebres painéis de São Vicente de Fora, apareceu a sua efígie, indicando-o como o Salvador da Pátria, com cinco séculos de antecedência. É obra! E, para mais verosimilhança, não apareceu no painel dos doutores (a que teria todo o direito), nem dos cavaleiros, nem dos frades (a que teria também direito), mas sim no dos modestos pescadores.
Alguns céticos não aceitaram esta revelação mística, mas, ainda assim, ficava a ideia de um possível “portuguese dream”…
Ora, o governante em questão terá razão em considerar-se acima de falíveis, porque humanas, eleições, porque foi eleito por mais altas instâncias.
E, se falhar (como outros escolhidos falharam) não será culpa sua, até porque isso seria pôr em causa a Providência.
Falhou porque os portugueses não o mereciam

Nuno Santa Clara

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