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Quotidianos

Estranha forma de crisePor Filipe Duarte
Barreiro

O Estado Social está na génese de uma Democracia equilibrada, justa, pacífica e feliz. Falta discutir a alternativa: temos, porventura, um Estado enfermo e mal gerido, mas o Estado Social é só uma das componentes do Estado em sentido lato. Podemos chegar ao fim do dia e decidir que queremos mais e melhor Estado Social.

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Estranha forma de crise Por Filipe Duarte Barreiro

Por Jornal Rostos

Não há como escamotear a realidade: o desemprego é um dos maiores dramas sociais de um país e de uma comunidade. Portugal tem uma taxa real de desemprego acima dos 20% e uma taxa de 42% de desemprego jovem! 42%! Isto é uma tragédia! O cenário que que se vislumbra no médio e longo prazo é dantesco e tem muito pouco de poético.
Os números avassaladores reflectem o resultado de uma garbosa política activa de desemprego, integrada numa demanda ideológica pelo desmantelamento do Estado Social. Estamos, certamente, no bom caminho. No bom caminho para uma regressão social sem precedentes na nossa Democracia. Paulatinamente, vamos assimilando – e aceitando – a falsa ideia de que fomos um povo de estroinas esbanjadores, boémios embalados pela orquestra do consumo desenfreado, que tem de expiar com a miséria social o pecado da luxúria consumista. Os que outrora cantavam loas ao crédito fácil e ao despesismo, hoje pregam o sermão da austeridade e da “existência” poupada e sacrificada.
Ainda que não resista a uma análise objectiva dos factos, a cartilha da propaganda joga e ganha: o Estado Social é insustentável porque sim e ponto final. Começámos pelo fim. O Estado Social está na génese de uma Democracia equilibrada, justa, pacífica e feliz. Falta discutir a alternativa: temos, porventura, um Estado enfermo e mal gerido, mas o Estado Social é só uma das componentes do Estado em sentido lato. Podemos chegar ao fim do dia e decidir que queremos mais e melhor Estado Social. Muitos países europeus saíram de crises económicas com um Estado Social reforçado, gordo, anafado, roliço, generoso e sustentável. Sim, o Estado Social é sustentável. É sobretudo uma questão de ideologia, vontade política e prioridades.
Na comunicação social discutem-se fait divers, lugares comuns e afirmações bombásticas que vão e vêm na espuma dos dias. O debate é estéril e intelectualmente pobre. As figuras de sempre alimentam o discurso supérfluo e fraudulento. Falta uma discussão séria, muito séria, sobre todas estas questões. Exige-se uma reflexão sobre o futuro civilizacional da própria sociedade, baseada no trabalho. Não nos esqueçamos que, a par da pérfida ditadura da “economia de casino”, sistema que hoje determina o futuro das nações e transforma os governos em meros administradores de crises soberanas (foi Mario Draghi, presidente do BCE, que o afirmou, em Outubro último: “Muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo”), temos de lidar com uma questão nuclear da discussão económica: a III Revolução Industrial. Está em marcha um progresso tecnológico cujas repercussões ainda estão longe de se fazer sentir na sua plenitude e para o qual temos de estar preparados.
Falta uma consciência cívica colectiva e cidadania informada. Urge combater as políticas de desemprego. Nenhum interesse da sociedade se sobrepõe à salvaguarda e garantia do bem-estar da população. A ajuda mútua e a solidariedade social constituem um imperativo e uma necessidade incontornável para uma sã sobrevivência individual e colectiva. O apartheid social é uma aberração do nosso Estado de Direito democrático.
O drama social não está à porta, está já sentado à mesa de muitas famílias.
É isto. Não podemos continuar a viver assim.

Filipe Duarte

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