E o povo dança a valsinha!Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Já lá vem o 10 de Junho, cantava o Rui Veloso na “Valsinha das Medalhas”, numa sarcástica referência à profusão de medalhados na Pátria ” pequena e com tantos peitos”.
A História da Guerra Colonial, consequência inexorável da opressão colonialista de 500 anos, com um longo cortejo de crimes e malfeitorias, ainda mal começou a ser feita e já está a ser branqueada a “toda a força”, ou, nalguns casos, de forma mais suave e subtil, para, como dizia o poeta Aleixo, “a mentira atingir profundidade”.
Como escreveu recentemente o historiador Manuel Loff, em substância e em referência à ”História de Portugal”, daqueloutro historiador, Rui Ramos, a história das guerras em África não pode ser meramente circunstancial e não se pode desligar da longa luta dos povos africanos, espoliados, explorados, escravizados e massacrados durante séculos de colonialismo português. Nem pode ser contada fora do contexto da luta antifascista em Portugal e dos anos terríveis de opressão, obscurantismo, prisões, deportações, tortura e morte, perpetradas pelo regime de Salazar e Caetano, com a sua polícia política (a PIDE/DGS), as suas Forças Armadas militaristas e o seu sistema corporativo de “conciliação de classes”, inconciliáveis.
Neste contexto e no actual panorama de profunda ofensiva capitalista neoliberal da direita no poder, que lançou o país no desemprego, na desesperança e no empobrecimento generalizado, relevamos dois apontamentos :
1. No discurso do presidente da República em 10 de Junho de 2012, o apelo, em síntese, para o espírito patriótico da juventude que se bateu na guerra em África, no sentido de superar as dificuldades do presente, foram ressuscitados os valores mais retrógrados, militaristas e mistificadores que empurraram um milhão de portugueses para uma guerra criminosa que sacrificou centenas de milhares de indígenas e vitimou mais de trinta mil jovens portugueses.
A mistificação promete continuar no próximo 10 de Junho, com a anunciada homenagem aos ex-combatentes, onde irá discursar a dr. Isabel Jonet, “pela ajuda prestada às famílias dos ex-militares com dificuldades”, no dizer do senhor almirante/presidente das comemorações.
Dizemos nós que também lá “batemos com os costados”, aquilo que os ex-militares precisam, como todos os portugueses naturalmente, é de trabalho e de pensões com dignidade, e particularmente, de apoios devidamente sustentados ao “síndroma pós-traumático de guerra”, de uma subvenção condigna que não os actuais 150 euros/ano(!), e de que não sejam descontadas as penas disciplinares no tempo de contagem para a reforma.
Senhores generais, não nos atirem mais poeira para os olhos, bastaram 48 anos! Não precisamos da caridadezinha das donas Supico Pinto do tempo actual, que devia ter sido morta e enterrada definitivamente com a Revolução de Abril ( a caridade claro, que então deu lugar à Solidariedade Social que ora nos roubam!).
2. A RTP transmite há algumas semanas uma série televisiva, “Depois do Adeus”, que em nosso entender, caricatura de forma patética e melodramática o período da revolução democrática iniciado em 25 de Abril de 1974, tendo como guião o problema muito sério do regresso de 500 mil portugueses das ex-colónias.
Mais ou menos com a mesma temática, a RDP transmite um programa radiofónico, “Começar de Novo”, baseado em testemunhos de ex-colonos retornados.
A redução da maior revolução portuguesa do século XX, aos arremedos esquerdistas dos “mrpp`s”, caricaturando as lutas revolucionárias que transformaram profundamente a realidade nacional, a denegação histórica do sucesso da integração de meio milhão de pessoas numa sociedade em transformação, no programa televisivo; a ausência do contraditório nos depoimentos subjectivos, a falta de rigor nos comentários com indisfarçável “part-e-prie”, da historiadora residente, a amputação do necessário enquadramento dos acontecimentos pós-25 de Abril na história do colonialismo português, especialmente dos anos da guerra, no caso da Antena 1, fazem destes dois programas uma oportunidade perdida de contar uma boa história, empolgante, humanista, generosa, revolucionária, como exige a descolonização, que deu finalmente “novos mundos ao mundo”, e como o 25 de Abril merece, sempre!
Armando Sousa Teixeira














