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Quotidianos

Destilação fracionadaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Portanto, em vez de fazer a escolha por provas dadas, percursos sem mácula, cursos ou concursos ganhos, podemos optar por quem não faça ondas – depois de devidamente compactado pelo cilindro compressor da máquina de seleção. Ou por outros critérios, demasiado obscuros para serem compreendidos pelo comum dos mortais.

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Destilação fracionada Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Ainda estamos na era do petróleo. E ainda estaremos por muitos mais anos, por uma questão de acomodação.
Ou seja, não porque estejamos condenados a depender do petróleo, mas porque é mais cómodo depender dele. Isto porque os interesses instalados à volta do “ouro negro” são de tal forma asfixiantes, que qualquer solução alternativa é imediatamente abafada.
Aliás, como há dias ouvi de um comentarista da TV (também os há bons!) a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra: foi porque surgiram novas tecnologias.
Para quem acha isto estranho, eu diria que não está atento ao mundo que o rodeia. A técnica é a mesma dos grandes clubes de futebol: comprar os melhores atletas, não para jogar nas suas equipas, mas para não jogar nas outras. E lá ficam os pobres promissores, no banco dos suplentes, até acabar a carreira, para não ensombrar algum campeonato não completamente garantido.
Tal como os inventores de novas tecnologias, a quem certas empresas compram as patentes, para as guardar ciosamente no cofre…
Isto também é válido para a estratégia. Durante a II Guerra Mundial, a Inglaterra tentou sempre impedir que o volfrâmio português chegasse à Alemanha; não o conseguindo por pressão política, passou a comprar mais do que precisava, de modo a negar esse precioso minério ao inimigo.
Desta vez, quem se lixou foram os chicos espertos, que entraram na dança até ficarem com um monte de pedras destituídas de valor, quando, em 1944, o trajeto do volfrâmio para a Alemanha foi interrompido…
Passando esta estratégia à do petróleo, veja-se o que hoje fazem as “Sete Irmãs” (as sete maiores companhias petrolíferas) para garantir os mercados a uns, e impedir o acesso de outros, para ver que não há nada de novo à face da Terra.
Ora, o petróleo é hoje muito mais bem aproveitado do que nos idos da II Guerra Mundial, quando quase todas as viaturas eram movidas a gasolina. Que desperdício! Hoje andam a gasóleo, ou outra mistura barata, com melhor aproveitamento energético – e ecológico.
Para obter um melhor aproveitamento do petróleo bruto, usa-se o método da cracking e destilação fracionada. Vai-se destilando o crude e extraindo, a diversas alturas do processo, aquilo que nos interessa. Assim temos, de cima para baixo, desde o volátil éter até ao espesso alcatrão, passando pela gasolina, gasóleo e óleos diversos.
Este método de seleção parece ter inspirado a sociedade portuguesa atual. Se, por um lado, podemos procurar para cargos importantes os melhores candidatos (ou seja, o éter do topo da torre de destilação), garantindo assim um requisito de qualidade, também podemos fazer a opção inversa, ou seja, recolher o denso e amorfo alcatrão, que serve para pavimentar estradas, e se deixa calcar sem reagir.
Portanto, em vez de fazer a escolha por provas dadas, percursos sem mácula, cursos ou concursos ganhos, podemos optar por quem não faça ondas – depois de devidamente compactado pelo cilindro compressor da máquina de seleção. Ou por outros critérios, demasiado obscuros para serem compreendidos pelo comum dos mortais.
Pois assim é, e segundo a nossa mais antiga tradição. Com naquele exemplo dado por Eça de Queirós, nas suas “Farpas”, em que, de dois candidatos, um tinha todos os atributos, mas não convinha; o outro não atingia os mínimos, mas convinha. Que fazer? Muito fácil! O que não convinha não estava recenseado, e com tal foi excluído…
Assim se vão pondo de parte os produtos mais finos (leia-se os mais qualificados) e se vão enchendo as estruturas com os menos refinados (espessos, amorfos, mas mais sólidos!).
Paralelamente, até se podem exportar os refinados (mandando-os emigrar) e guardar o alcatrão.
Até quando? Até que essa mentalidade mude.
Quando isso suceder, sobrarão montinhos de alcatrão, que talvez sirvam para tapar buracos das estradas…

Nuno Santa Clara

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