A apanha da azeitonaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Que Portugal tem de investir na agricultura, ninguém duvida; não podemos continuar eternamente a ser deficitários naquilo que mais falta nos faz, e que é pão nosso de cada dia (no sentido figurado, ou bíblico).
O que falta é quem aceite trabalhar nos campos, mourejando de sol a sol, dependendo da chuva ou da seca para conseguir arrancar à terra, muitas vezes ingrata, os produtos sem os quais não podemos passar.
E a chuva, sobretudo, é ainda mais determinante para as nossas vidas; segundo afirmações recentes de um alto dirigente, até tem forte influência no investimento, o que tem levado alguns economistas a substituir a imprensa especializada pelo conhecido Almanaque Borda d´Água.
Ora, a questão do momento não parece relacionada, à primeira vista, com a Agricultura; trata-se do pagamento do subsídio de férias aos funcionários públicos.
Não vamos recapitular a saga desse acidentado abono, e a tramitação do mesmo pelo Governo, pela Assembleia da República ou pelos Tribunais.
Primeiro, porque não estou minimamente qualificado para isso. E para tal, haverá sempre altas competências que defenderão o Governo, com argumentação sólida de que a Lei é para se cumprir (ao que parece, mesmo que chumbada); como haverá também outras igualmente altas competências que contestarão frontalmente o Governo (em apoio das rebeldes autarquias), escudadas em argumentação igualmente irrecusável.
Fica-nos a vontade política, e essa foi anunciada pelo Primeiro-Ministro, e com uma declaração surpreendente, pelo insólito: dinheiro há (isso mesmo!); o que não há é a legislação que permita pagar. Dito por quem tem a faca e o queijo na mão (o Governo e a Assembleia da República), esta posição pública faz transparecer uma intenção, já que não é credível que se trate de um capricho, e muito menos de ignorância sobre o modo como funciona a Economia (neste caso, o setor ligado ao Turismo).
Não! Não pode ser por ignorância, até porque parte de alguém que se reclama da sua qualidade de gestor. Então, qual será a intenção?
O adiamento do pagamento do subsídio para Novembro (com maiúscula, já que será um novembro especial) tem uma intenção, talvez oculta, decerto meritória e quiçá patriótica.
Os portugueses contemplados com o subsídio no mês tradicionalmente dedicado aos defuntos ficarão, numa primeira fase, algo confusos.
Que fazer? A praia (esse antro da ociosidade!) já acabou; neve, não haverá, nem aqui, nem lá fora; passeios ecológicos, debaixo de chuva (lá vem ela outra vez!), nem pensar.
A solução é tão lógica que se imporá naturalmente à generalidade dos funcionários públicos: todos para a apanha da azeitona! Junta-se o útil ao agradável, e até se pode ganhar algum dinheiro com isso, em vez de o esbanjar lá fora ou cá dentro.
Não foi isso que fez Fidel de Castro, com a campanha da colheita da cana-de-açúcar? Não foi ele mesmo cortar cana, debaixo de um sol inclemente, para dar o exemplo? É certo que não foi atingido o objetivo dos dez milhões de toneladas, mas o gesto foi importante.
Pois se os funcionários públicos forem colher azeitona, à chuva e à geada, nisso investindo o que sobrar do seu subsídio, será decerto um grande passo em frente na nossa auto suficiência em azeite; talvez se possa mesmo exportar mais algum, para benefício da balança de pagamentos.
Vista por este prisma, até é uma atitude louvável.
Nuno Santa Clara














