Os Professores Portugueses Lutam (Literalmente) Pela VidaPor António José Carvalho Ferreira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Não foi, enquanto cidadão, professor e pai, de ânimo leve que me decidi por fazer hoje greve ao serviço de vigilância aos exames nacionais para que estava convocado. Foi mesmo com mágoa que o fiz, foi de coração pesado, porque sei o que está em causa para os alunos e suas famílias. Não é o mesmo fazer um exame hoje ou noutro dia qualquer e não dá tranquilidade a ninguém saber se o vamos fazer ou não. Mas o que está em causa é muito, a parada está a um nível muito alto, e quem perder esta oportunidade arrisca-se a perder tudo, até a vida.
A antipolítica da quadrilha, a troika mais o (des)governo português, está a destruir, não apenas a escola pública, mas a res publica ou seja, de uma só penada, toda a evolução social conseguida por dois séculos de sangue, suor e lágrimas, ameaçada de sucumbir pela investida global do "lumpencapitalismo". Pelo capitalismo que já nem é sequer de "casino", é antes de "roleta russa". Totalmente improdutivo, vive da mega agiotagem, da usura desbragada, do total amoralismo e do total desprezo pelo destino das pessoas, na adoração do bezerro de oiro que exige sempre mais e mais vítimas para um holocausto infrene. Chama "economia" ao saque e ao esbulho financistas, chama "equilíbrio" à rapinagem. Aposta no dividir para reinar, fazendo os seus agentes lembrar Tulius Detritus, o homenzinho verde dos álbuns do Astérix que atirado aos leões no circo romano, conseguia pô-los a comerem-se uns aos outros.
Os professores portugueses estão com esta greve a lutar pela vida, pela dignidade da Escola Pública, pelos direitos dos seus alunos, que acompanham e acarinham como ninguém. Os professores portugueses, muito com três e quatro décadas de profissão e a quem não deixam aposentar, barrando na prática e para além de todas as retóricas divisionistas, a entrada de sangue novo no sistema, já andaram de terra em terra, dormindo em quartos alugados, comendo meias doses, separando-se do cônjuge e dos filhos, levando muitas vezes "cada um o seu", sem ganhar mais um tostão que fosse, sem qualquer subsídio de deslocação, que na prática não teve, nem tem limites.
Os professores portugueses já não reclamam pelo confisco de grande parte dos salários e subsídios a que, como muitos dos portugueses, estão sujeitos há mais de dois anos, os professores portugueses que fizeram licenciaturas, pós-graduações, mestrados e doutoramentos, fizeram estágios, relatórios de auto e hetero avaliação, tiveram aulas observadas, acções de formação e têm honrado os seus compromissos profissionais até ao excesso, vêm-se agora confrontados com horários de quarenta horas, sabendo-se de antemão que muito mais do que isso já trabalham, perguntando que outra profissão com idênticos vencimentos, leva trabalho para casa até à exaustão para as noites de serão, fins-de-semana e férias roubadas à família e à casa? Agora vêm dizer-nos que, após termos construído uma vida com dignidade e brio profissional, podes estar aos quarenta, cinquenta ou sessenta anos, na iminência de seres despedido sem qualquer justa causa e sumariamente lançado na miséria e na indigência, sem teres sequer direito sequer a mínimas contrapartidas pelos teus muitos anos de descontos e de impostos.
Amigos, neste momento, mesmo perante os enxovalhos e as calúnias de quem lucrou com o regabofe e agora clama por austeridade, de quem promoveu a destruição do aparelho produtivo nacional e agora clama pelo "mar", pela "agricultura" pela "reindustrialização", de quem nos fez embarcar em aventuras que nos hipotecaram a soberania e nos conduziram a armadilhas sem saída, a não ser com custos enormes. Os professores portugueses estão irmanados no desígnio ético que proclama a defesa da própria vida como um Dever e não será sem luta que desistirão da sua, da dos seus filhos e da dos seus alunos, futuro de Portugal, para que se constituam elites mais dignas do que estas sanguessugas que agora nos assombram e cidadãos mais cônscios que não deixem que tal se venha a repetir.
António José Carvalho Ferreira
Professor da Escola Pública há 36 anos














