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Quotidianos

O Povo na RuaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

O Povo na Rua é a resposta à falta de resposta das instituições, seja para aclamar o Mestre de Avis, em 1383, seja para impedir a destruição de um parque público em Istambul, em 2013. Ou para refrear a ganância desenfreada e suicidária, em Nova Iorque, ou as manigâncias especulativas, em São Paulo.

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O Povo na Rua Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

A imagem do Povo na Rua é das que mais marca o nosso imaginário. Do entusiasmo ao horror, com todos os cambiantes intermediários, é algo que não deixa ninguém indiferente.
Pode ser vista como a suprema expressão das massas, antecâmara do poder popular, passo necessário na caminhada dos povos para um futuro que tem tanto de risonho como de utópico (mau grado os que pretendem que há um determinismo científico nessa caminhada).
Como pode ser vista como o supremo horror a plebe ignara ocupar a praça pública, paralisando de terror as pessoas de bem, impondo a demagogia mais abjeta nas relações humanas, lançando qualquer sociedade no abismo da barbárie.
Exemplos históricos abundam, e explicações profundas de uma e outra interpretação também. E isto porque esta questão não é nova – longe disso!
A explosão do Povo nas Ruas pode ser considerada um fenómeno cíclico, daqueles que a ciência social procura explicar. Mas, como todas as ciências – exceto a matemática, tem uma base empírica, assentando naquele princípio do determinismo, segundo o qual as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos.
Ora, como a determinação das causas é muito complexa em fenómenos sociais, os estudiosos da matéria, um pouco como os treinadores de bancada (ou de estúdio de rádio ou TV), são peritos em explicar o que correu mal, mas incapazes de prever como correrá bem.
Se atentarmos na onda de manifestações populares que têm surgido um pouco por todo o mundo, tanto em países ricos como em países pobres, tanto ocidentais como orientais, tanto cristãos como muçulmanos, salta à vista um dado comum a todos eles: elas surgem à margem dos partidos políticos instituídos, das organizações estabelecidas ou das religiões maioritárias.
Esse gigante das Letras que foi Vitor Hugo, homem com verticalidade suficiente para se auto exilar quando achou que isso era um imperativo de consciência, escreveu um dia que o mal das maiorias era estarem condenadas a ter sempre razão, pelo que não restava às minorias outra forma de expressão que não fosse a violência.
Passado século e meio, a pertinência desta frase não parece ter razão para ser posta em causa. Decerto a sociedade evoluiu, a Democracia está instituída em muitos países, a mobilidade social acentuou-se. Mas a própria institucionalização desses valores trouxe consigo um certo imobilismo dentro das estruturas criadas, que por vezes não dá saída à contestação que normalmente mais não é que a natural evolução das sociedades.
O caso porventura mais estudado, em tempos modernos, foi o Maio de 68, em França. Surpreendeu políticos, sociólogos, filósofos, que não conseguiam encaixar aquele movimento em nenhum dos seus classificadores. Nada mais natural, uma vez que o movimento era precisamente contra esse raciocínio classificado, acondicionado e embalado, pronto a servir.
Como com o 25 de Abril: segundo os cânones estabelecidos, os militares não fazem revoluções, mas apenas golpes de estado, e de pendor conservador. O que não se esperava era que o Povo saísse à Rua, contrariando as ordens do MFA, e transformando um golpe de estado numa Revolução.
Ora, é esse lado imprevisível e não programado que tem vindo a dar dores de cabeça aos sempre presentes e sempre ultrapassados políticos, sociólogos e filósofos, quando pretendem explicar movimentos como o “occupy”, a aparição de máscaras do “Guy Fawkes”, os protestos na Turquia ou a atual explosão social no Brasil.
Ao fim e ao cabo, na origem desses movimentos estão normalmente questões aparentemente de pouca monta, quiçá insignificantes, pelo que não merecem, de início, a atenção dos poderes e contrapoderes constituídos.
Depois, é a corrida ao encontro dessas massas desenquadradas, na tentativa de canalizar para este ou aquela força organizada, partido ou religião estabelecidos, por forma a capitalizar aquela energia.
Quem viveu o 25 de Abril e o que se lhe seguiu tem decerto uma boa memória de fatos semelhantes, como o cerco da Assembleia então Constituinte.
O Povo na Rua é a resposta à falta de resposta das instituições, seja para aclamar o Mestre de Avis, em 1383, seja para impedir a destruição de um parque público em Istambul, em 2013. Ou para refrear a ganância desenfreada e suicidária, em Nova Iorque, ou as manigâncias especulativas, em São Paulo.
Mas sempre com algo de espontâneo que assenta na tomada de consciência que todos os poderes constituídos tendem a cristalizar e a condescender (leia-se pactuar) com interesses com quem, ética e ideologicamente, deveriam estar em conflito.
Dito de outra forma, todo o poder corrompe; e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Nuno Santa Clara

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