Passados 50 Anos de Um Sonho Chamado EuropaPor João Carlos Soares
Barreiro

Por Jornal Rostos
Passados 50 anos de um sonho, da necessidade de se construir uma Europa unida, renascida das cinzas da guerra, é com mágoa que assistimos ao desmoronar da esperança de muitos, para benefício de uns poucos, numa Europa enfraquecida pela ganância e oportunismo de lobbies, num autêntico pesadelo sem fim, transformando aquilo que se pretendia como uma comunidade de estados unidos, num autêntico estado de orfandade deste velho continente, que é a Europa.
Sentimos que a Europa como um sonho, uma ideia, um projeto, caminha a passos largos para o abismo, de nada valendo os apelos à consciência dos dirigentes, para que não se apague o sonho, que os nossos pais colocaram de pé, e nos permitiram viver em paz, com prosperidade e em Democracia, mas que se esfuma perante os nossos olhos, uma vez mais, no meio da indiferença, cinismo e hipocrisia dos países mais desenvolvidos.
Este sonho, tornado realidade, para a paz e integração de muitas democracias, tem sido sujeito a um sem número de hemorragias internas, começando por um dos seus pilares, a Grécia, a que se seguiram a Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Chipre, sujeitos a um combate contra o empobrecimento e vassalagem, de tanto castigados e estigmatizados, a partir de planos de rigor e austeridade e despojados dos seus princípios de soberania.
Esta enfermidade que envolve neste momento, o ideal europeu, coloca na miséria, de forma dramática, a moral, a ética e solidariedade que os europeus estimularam pelo mundo. De leste a oeste, de norte a sul, a Europa mete água por todos os lados, numa ascensão de populismo, chauvinismo e ideologias de exclusão e ódio, precisamente com a intenção de marginalizar e envergonhar os mais desfavorecidos, impedindo-os de levantar a cabeça, face à chamada crise do euro, moeda única no espaço europeu (exceção à Suécia, Polónia e Reino Unido), que flutua ao sabor da economia dos países, nos seus recursos, e num sistema fiscal pesado e convergente.
Aquilo que outrora ficou conhecido como “limpeza étnica”, podemos dizer hoje, que está em curso uma “limpeza económica”, manifestamente premeditada e implacável, por um grupo de federalistas, ao serviço dos grandes grupos económicos, nomeado por Durão Barroso em 2008, no início do período recessivo que se espalhou por toda a europa, que adotaram medidas e políticas federalistas de autêntica loucura, regressão social e perda de direitos consignados pelas constituições de cada país, precariedade, desemprego galopante e miséria, sem qualquer unidade política, aguardando a todo o momento o início de qualquer conflito ou crise, para fazer desaparecer o euro, a única referência que ainda mantém os países da comunidade unidos.
Para que este cenário não se venha a verificar, torna-se urgente que a Europa dê um passo decisivo em frente, na direção da integração política, no respeito pela soberania de cada Estado, na tomada de medidas adequadas e não simples maquilhagem, como tem acontecido até agora, ou então sujeita-se a desaparecer de um dia para outro, se continuarem a insistir em truques de mágica de alguns, pequenos acordos de outros, fundos de solidariedade por aqui, recapitalização de bancos por ali, que servirão unicamente para distrair as populações e adiar o fim agonizante dos países em situação difícil.
A Europa, tem o dever e a obrigação de mostrar ao mundo a sua capacidade de nunca perder a capacidade crítica em relação ao comportamento dos Estados, no entanto, face às políticas neoliberais implementadas pelos social-democratas e socialistas de cócoras diante de grandes corporações, agitados por níveis de corrupção dignos de uma comédia, não se avista por onde possa aparecer alguém capaz de encarnar o grande sonho europeu, que um dia, os que o fomentaram, desejariam ver concretizado.
Está mais que provado, que as instituições europeias não se encontram à altura das suas responsabilidades. Cada vez mais se sente a necessidade que os cidadãos se pronunciem e exprimam, através do Parlamento, que irão eleger em Maio de 2014, e de uma Constituição digna desse nome. A Comissão deverá assumir a forma de um governo eleito pelos povos e prestar contas aos eurodeputados, que os reportarão aos seus eleitores locais.
Esta Comissão, liderada por Durão Barroso e pelo seu grupo neoliberal, fortemente criticada pelo FMI e levada ao colo pela Troika, deveria ser demitida pelos erros que cometeu e que, tardiamente veio a reconhecer, semeando a discórdia entre os diversos estados membros, esturrando dinheiro dos contribuintes europeus e precipitando as economias de diversos países para o caos, como foi o caso de Portugal. Aliás, não será admiração para os mais atentos, se considerarmos o desempenho de Barroso em Portugal, enquanto primeiro-ministro, tal o valor da dívida e dificuldades em que deixou o País, antes de assumir a Presidência da União Europeia.
Não podemos deixar em claro, o miserável desempenho de líderes como Barroso, que após terminar o seu mandato, ficou tristemente célebre, através da frase “Um País de Tanga”. Lá diz o ditado: “Se não consegues governar a tua casa, não serás capaz de governar a dos outros”. Como consequência das experiências a que submeteram alguns países, como se de cobaias se tratassem, conduziram esses países, onde se incluem a Grécia, Portugal, e Chipre, à catástrofe económico-social, não esquecendo que foram as políticas implementadas por políticos sem caráter nem sentido patriótico, que conduziram o sonho europeu a uma realidade de contornos trágicos, imprevisíveis e sem futuro.
A União Europeia já não o é, pelo menos tal como os seus mentores previam que viesse a ser. Neste momento a questão que se coloca, não é saber o que nos espera desta união, mas o motivo pelo qual a Europa, que tantos sonhos alimentaram, já não existir. A Europa livre e solidária, já não existe e os responsáveis políticos, por todo este descalabro, nem coragem têm para o assumir.
Há alguns anos atrás, ainda se mantinha o objetivo, dos países que aderiram à União Europeia, em poderem vir a fazer parte dos chamados países ricos, através de uma convergência de fatores, entre eles a solidariedade no seio da Comunidade, situação contrariada desde já, face à situação de países como a Grécia, Portugal e Chipre, que pelas previsões económicas para a próxima década, confirmam o empobrecimento desses países, colocando-os praticamente numa situação muito pior do que aquela que tinham quando entraram, sujeitos que foram a um processo de desmantelamento de toda a sua economia, por razões de competitividade e como condição indispensável para a sua aceitação, no seio da Instituição e acesso à moeda única, o €EURO.
O grande erro, desde que se deu início à unificação da Europa, residiu no fato de se criar primeiro a moeda única, quando se deveria ter caminhado, para a implementação de políticas comuns. Não tendo sido esse o caminho escolhido, os países menos evoluídos tecnológica e industrialmente, ficaram cada vez mais dependentes e reféns da zona euro.
Como sair da crise? Se observarmos atentamente para todo o percurso europeu, perceberemos que alguns países estão em crise e outros não, ou são menos afetados por ela. Por outro lado, em alguns casos, como a Espanha, mesmo com um valor de taxa de desemprego elevadíssimo, manteve-se soberana nas suas decisões, e até com alguns efeitos benéficos sobre determinadas práticas. Segundo este ponto de vista, o principal problema de qualquer política é o de criar ganhadores e perdedores, mas isso é coisa que os políticos nunca nos irão dizer. Não se trata tanto do problema em si, pois sempre houve perdedores e ganhadores e a questão reside em saber como dar compensações a uns e explicar aos outros que é do seu interesse pôr em prática esta ou aquela política.
João Carlos Soares
Barreiro, 01 de Julho de 2013














