Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Um hábito – ou talvez nãoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Assim sendo, o que se está a passar é simplesmente a tomada do Poder e à sua utilização em benefício de alguns, e não de toda a sociedade, sem a desculpa da livre concorrência. E, dentro dos alguns, há alguns mais alguns que outros, o que explica em parte as reações registadas no seio do partido do Governo.

4 min de leitura
Um hábito – ou talvez não Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Um dos hábitos mais arreigados na nossa maneira de ser – nossa, dos portugueses – está em perdoar, esquecer ou até enaltecer alguém que morreu. As próprias vítimas olvidam agravos, insultos ou espoliações, resumindo esse perdão universal em frases como “coitado, já lá está…”.
Igualmente quanto a políticos. Nada como uma demissão, ou outra forma de afastamento, para que o branqueamento salte de imediato para a praça pública. As frases são outras, do tipo “atrás de mim virá quem bom de mim fará”, ou, mais modernamente, “volta, estás perdoado”.
A saída de Vítor Gaspar do Governo, logo seguida da de Paulo Portas, vai decerto fazer correr muita tinta e muitas horas de debate público, com nefastas consequências ecológicas: florestas abatidas para imprimir jornais, subida do consumo de energia, horas de sono perdidas.
Tudo porque a maioria dos analistas, em vez de ir ao fundo das questões, se fica pelo dissecar de declarações, de comunicados das aparições, sem atentar que tudo isso são mensagens codificadas, e, no fundo, meras operações de propaganda, não muito diferentes da promoção imobiliária, da concessão de créditos ou da venda de detergentes. Aliás, não se usa correntemente a expressão “vender um candidato”, no sentido de promover a sua eleição?
A atual crise (ou crise dentro da crise) não deveria surpreender ninguém que soubesse dissociar o nómeno da essência das coisas, do fenómeno do discurso político.
E no entanto os indicadores estavam aí. Bastaria examinar as declarações dos ministros do CDS/PP para ver que não estavam em sintonia com as do PSD. E isto por uma questão de fundo.
Tem-se usado e abusado da classificação de neo-liberal, ou ultra-liberal, para rotular a política do atual governo. Seria assim, se fossem deixadas ao livre jogo da concorrência as forças económicas, por forma a obter um equilíbrio (pelo menos em teoria). Ora, o que se vê ´e um intervencionismo sistemático por parte de Governo, materializado, entre outras coisas, por uma diplomorreia (neologismo que significa superabundância de diplomas legais) de leis, decretos, portarias e regulamentos, em quantidades que nem o Corporativismo do Estado Novo conseguiu produzir; aliás, esse fenómeno foi muito bem notado pelo bastonário da Ordem dos Advogados. Isto combinado com apoio a entidades privadas, com a banca à cabeça, que são a negação do princípio liberal.
Assim sendo, o que se está a passar é simplesmente a tomada do Poder e à sua utilização em benefício de alguns, e não de toda a sociedade, sem a desculpa da livre concorrência. E, dentro dos alguns, há alguns mais alguns que outros, o que explica em parte as reações registadas no seio do partido do Governo.
Por outro lado, temos o “caso Gaspar”, porque de um caso se trata. O ex-Ministro das Finanças é um crente, como crentes são os talibãs, os amish ou as Testemunhas de Jeová. Só assim se explica porque insiste numa fórmula que não vingou em lado nenhum, e só assim se explica que tenha seguidores: é uma questão de fé. E a fé não carece de demonstrações.
Dito de forma anedótica, é como alguém que quer comprar uns sapatos, que constata estarem apertados: em vez de os trocar, corta os dedos dos pés, e resolve o problema.
Finalmente, temos o CDS e a sua idiossincrasia, baseada na Doutrina Social da Igreja (na parte que lhes convém, claro). Basta atentar nas declarações dos Bispos para ver que há ali pontos comuns – embora não uma colagem. Ora, o liberalismo sem peias não se coaduna com essa doutrina, até porque representa um materialismo que está fora do espírito cristão.
Vistas estas três posições, a rutura era previsível. E a gota de água foi a substituição de Vítor Gaspar (um fanático, mas puro) por alguém cujo passado recente aparece envolto em operações financeiras no mínimo contestáveis.
Ou seja, um pouco como a nomeação da raposa para guardar o galinheiro…
Por tudo isto, quando trato quase carinhosamente Vítor Gaspar como “talibã das finanças”, faço a justiça de lhe reconhecer mérito; ele até nem terá problemas em arranjar um bom emprego – no mercado livre, ao contrário de muita gente.
E não estou, decisivamente, a enveredar por aquele hábito de branquear e elogiar o defunto.

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção