PESOS E MEDIDASPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Uma grande conquista da Revolução Francesa foi o sistema métrico decimal, que hoje é usado em todo o Mundo, embora a sua aplicação ainda hoje tenha resistência no universo anglo-saxónico, onde as jardas, polegadas, milhas, onças, libras, galões e pintas (entre outras) continuam a ser usadas.
Pois os quilogramas, metros e litros, com os seus múltiplos e submúltiplos, constituem um sistema de medidas muito mais racional, e então para cálculos de partes, percentagens ou divisões é incomparavelmente mais prático. Se duvida, tente calcular quanto é 15% da área de um quadrado que tem de lado três jardas, cinco polegadas e sete linhas (ou 7/16) …
Com o sistema métrico decimal, julgou-se que deixaria de haver dois pesos ou duas medidas para o mesmo objeto. Se matematicamente é assim, já em política não é. Senão, vejamos.
Há já algum tempo criou-se uma grande polémica, a nível mundial, à volta dos chamados “voos da CIA”. Ao que se se sabe, esta agência de informações americana transferiu prisioneiros clandestinamente do Afeganistão e de outras paragens para a própria América e para países aliados, tão díspares como a Polónia ou o Egipto.
Havia duas razões principais para isso: primeiro, o volume de prisioneiros atrairia as atenções, e seriam levantadas questões, sobretudo de legalidade; segundo, os prisioneiros em solo americano gozariam dos direitos inerentes a essa situação, e qualquer juiz de comarca poderia fazer perguntas embaraçosas. Aliás, é essa a razão da manutenção da prisão de Guantanamo, apesar das promessas eleitorais de Barak Obama.
Ora, a CIA não tem aviões próprios. Para operações delicadas, serve-se de companhias de aviação privadas (como a Air America), que fazem o trabalhinho sob uma capa que nem pode ser diplomática.
Partindo do princípio do open skies (céu aberto), qualquer avião é livre de voar, desde que cumpra certas regras, tanto nas operações de voo como no trânsito de passageiros ou de carga. E aqui entra o busílis: como saber se o avião transporta droga ou passageiros clandestinos, se faz apenas uma escala de reabastecimento, sem desembarcar ou embarcar nada? Só por denúncia se poderia exigir uma verificação, e a CIA (ou o FBI) não iriam denunciar uma sua operação secreta…
Para mais, se uma agência americana pede, por exemplo, uma escala nos Açores, parte-se do princípio que é um voo de rotina e a exigência de uma inspeção poderia criar um incidente diplomático, dado o estatuto especial que têm as atividades na Base das Lajes.
Ou seja, a medida (ou melhor, a não medida) tomada foi não fazer ondas, ainda que houvesse alguns indícios de anormalidade em alguns voos.
Recentemente, nova polémica à volta da não autorização de sobrevoo do nosso espaço aéreo pelo avião do Presidente da Bolívia. Aqui a questão complica-se: Portugal tem relações diplomáticas com a Bolívia, e as normas internacionais garantem a imunidade de certas pessoas, como os governantes e diplomatas, mesmo entre países em guerra.
Para piorar o assunto, ainda recentemente, tanto o Presidente da República, na Colômbia, como o Ministro dos Negócios Estrangeiros, na Venezuela, tinham marcado pontos para a diplomacia e economia portuguesas. Dadas as manifestações de desagrado em toda a América Latina, dir-se-ia que se perderam esses pontos – como se perdeu o capital investido nessas ações…
Ao que parece, Portugal terá correspondido a um pedido no sentido de negar o sobrevoo e escala, por se recear a passagem de um clandestino (o célebre Edward Snowden) no avião presidencial.
Por uma suspeita não fundamentada, criou-se um incidente diplomático em larga escala. Desta vez a medida foi efetiva, e ultrapassou a hipotética transgressão.
Pelo que, afinal, temos dois pesos e duas medidas: no caso dos “voos da CIA”, preferiu-se olhar para o lado; no caso do avião presidencial, preferiu-se criar um incidente diplomático previsível.
Assim sendo, não seria melhor voltar às jardas, pés, braças, côvados, polegadas, almudes, alqueires, libras, onças e outras?
É que, pelo menos, haveria justificação para haver dois pesos e duas medidas: com a confusão das reduções e conversões, o resultado teria dado errado…
Nuno Santa Clara














