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Quotidianos

A queda de um anjoPor Pedro Estadão
Barreiro

Pior seria para o Partido Socialista, se se visse uma repetição do caso Santa Clara Gomes, e, a atitude do Juvenal Silvestre desde 2009, quando, numa reuniuão da Comissão Política Concelhia, repudia a aceitação do Pelouro por parte do Nuno Santa Clara Gomes e, passados poucos dias, aceita ser seu Secretário Político, na Câmara Municipal do Barreiro, indica totalmente que essa repetição era possível.

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A queda de um anjo Por Pedro Estadão Barreiro

Por Jornal Rostos

A primeira vez que fui ao circo, foi em Coina. Talvez por isso, cada vez que passo em frente ao terreno onde se realiza o mercado dessa Freguesia, os meus pensamentos voltam-se para as artes circenses e a minha alegria de criança embasbacada com a perícia de uma família italiana que, na primeira parte realizava um exercício de forças combinadas e, na segunda, complicados malabarismos com tachos, pratos e copos. Esta semana, senti-me como se estivesse novamente a entrar no chapitô, tais não foram as maravilhosas acrobacias, dignas de constituir um verdadeiro manual de arte circense aplicada à política, que se desenharam tendo como pano de fundo a mesmíssima Freguesia de Coina das minhas memórias de infância.

O Juvenal Silvestre foi, para mim, e durante uns longos anos, uma referência enquanto autarca, pela sua preserverança, seriedade, honestidade e capacidade de trabalho. Considerei-o o epítome do que deveria ser um Presidente de Junta de Freguesia, pelo que aplaudi quando lhe foi entregue o Prémio Autárquico Aires de Carvalho e voltei a aplaudir de cada vez que renovadas direcções concelhias do Partido Socialista o homenagearam e voltaram a apoiar como candidato a Presidente da Junta de Freguesia de Coina, uma e outra vez. E concordei de cada vez que um e outro e mais outro militante socialista exaltou o seu nome como verdadeiro exemplo do que deve ser um autarca e as suas acções como verdadeira demonstração daquele que deve ser o trabalho de um militante socialista. Foi por isso que fiquei chocado com o que fui vendo acontecer ao percurso político e ao comportamento do Juvenal Silvestre a partir das eleições de 2009 e, ultimamente, com a decisão que tomou, de romper com o partido e criar uma lista de independentes para a Freguesia a que ainda preside.
A distância com que tive de lidar, pelo facto de a minha vida profissional me ter levado para o estrangeiro durante dois dos últimos quatro anos, obrigou-me a reler a imprensa, a questionar personagens chave desta história e, por fim, a reflectir profundamente sobre o caso, que, para mim, encerra algumas lições que devemos preservar para o futuro. Concluí que devia partilhar convosco alguns pormenores desta história, que são menos conhecidos do público em geral, para que se percebam por fim as ilações que tirei do caso e todos possamos reflectir sobre este episódio da forma mais séria possivel, tendo em particular consideração os cidadãos eleitores da União de Freguesias de Palhais e Coina, que serão os principais visados das campanhas de desinformação que as campanhas dos diversos partidos e movimentos vão pôr a circular durante os próximos três meses com o objectivo de recolher o voto dos mais incautos e dos menos informados.
Conforme vos disse, fiquei chocado com o anúncio de que o Juvenal Silvestre abandonara o Partido Socialista junto com alguns dos elementos da sua lista da Junta de Freguesia de Coina e que tinha sido obrigado a tomar essa decisão, nas suas palavras, porque "não foi respeitado nem reconhecido o trabalho dos autarcas socialistas da freguesia de Coina, pelo lugar que é atribuido ao representante da freguesia de Coina na lista de candidatos à Câmara Municipal do Barreiro, nas próximas eleições autárquicas". Ou seja, uma vez que o Juvenal Silvestre não ficou satisfeito com o lugar que lhe foi proposto na lista do Partido Socialista para a Câmara Municipal do Barreiro, decidiu sair desse partido e formar uma lista independente. Como considerei que esta era a frase chave que encerrava a razão da rebeldia, tentei inteirar-me dos factos, tendo sido informado de que Juvenal Silvestre tinha recusado, entre outras posições na lista, a de candidato a Presidente da Assembleia Municipal, que, como todos sabemos é o lugar de maior prestígio e reconhecimento que um político pode ambicionar dentro de um Concelho e que terá recusado lugares cimeiros na lista da Câmara Municipal, fazendo finca-pé no 2º lugar da lista. Tanto quanto sei, Juvenal Silvestre entrou em ruptura com o Partido Socialista porque lhe foi recusado o único lugar da lista que poderia ocupar, e que, aparentemente, é de eleição garantida. Considerando que poderia ter ido em 4º lugar e que estava a negar ao cabeça-de-lista a possibilidade de escolher a pessoa que o substitui na sua ausência, mostrou, com esta exigência que o importante para ele era ser eleito a qualquer custo, sem qualquer consideração pela possibilidade de vitória nas eleições ou pela legítima aspiração da Direcção do Partido de definir o perfil das equipas que vai ter a trabalhar em caso de derrota, ou em caso de vitória. Parece-me que o Juvenal seria um Vereador extremamente válido em caso de vitória, mas, no caso de uma derrota, é importante contar com uma equipa com características diferentes das dele. Demonstra-se assim que o Juvenal Silvestre quis, individualmente, sobrepôr os seus interesses pessoais aos interesses do seu partido e, ultimamente, dos cidadãos que nele depositam a sua confiança através do voto, e isso, não é, de forma alguma, aceitável.
Pior seria para o Partido Socialista, se se visse uma repetição do caso Santa Clara Gomes, e, a atitude do Juvenal Silvestre desde 2009, quando, numa reuniuão da Comissão Política Concelhia, repudia a aceitação do Pelouro por parte do Nuno Santa Clara Gomes e, passados poucos dias, aceita ser seu Secretário Político, na Câmara Municipal do Barreiro, indica totalmente que essa repetição era possível. Tenho, para mim, que seria mau demais se esse fosse mesmo o objectivo de toda esta jogada do autarca de Coina, mas as evidências indiciam que o caminho estaria aberto para o Juvenal ser o próximo Vereador do Pelouro dos Cemitérios, no cenário de uma derrota do Partido Socialista em que ele estivesse eleito como Vereador. E a próxima cova a ser aberta era a do próprio Partido Socialista.
Vendo negado o seu desejo de ser o numero dois da lista do Luís Ferreira à Câmara Municipal do Barreiro, Juvenal Silvestre declarou guerra ao Partido que representou durante as últimas duas décadas e colocou-se numa posição de vale tudo, ao passar de, num dia querer ser um dos mais elevados representantes do Partido Socialista, a, no dia seguinte, esquecer "os anos de luta contra a CDU" e formar uma lista onde quer juntar "pessoas que sejam do Bloco de Esquerda, do PCP ou sem partido": afinal, onde é que fica a coerência? E, de seguida, lança-se no caminho da oligarquia, porque, estando impedido legalmente de se candidatar ele próprio por acumulação de mandatos, coloca a sua esposa à cabeça da lista, inserindo-se uns lugares abaixo (será que é legal? Afinal de contas, se ganhassem as eleições e dois ou três suspenderem mandatos, ele voltaria à presidência da Junta).
O Movimento de Cidadãos Independentes de Palhais/Coina é uma falácia e acaba por se demonstrar um malabarismo político insidioso, em que os interesses da população não são, de forma alguma tidos em conta, mas, antes, preteridos em função do ego e da mesquinhez vingativa de uma ou duas pessoas. O Juvenal Silvestre passa de autarca modelo a cacique de vão de escada e a imagem do trabalho que fez ao longo dos últimos anos fica para sempre manchada pelas acções dos últimos dias. E o resultado não é benéfico para a democracia nem para a população de Coina e de Palhais, porque se prevê que a guerra começa agora, mas vai durar e perdurar durante todo o próximo mandato de uma Junta de Freguesia que estará dividida por razões alheias aos interesses do povo, mas muito intimamente ligada aos interesses pessoais dos envolvidos.
António José Seguro dizia há poucos dias, acerca deste tipo de listas, que têm aflorado um pouco por toda a parte, que "não são listas de independentes, mas de dependentes da política que não conseguiram nada do PS". Por isto e pelo acima exposto, espero que o malabarismo falhe e desejo que este Movimento de Independentes se revele como aquilo que é e tenha os votos que merece.

Pedro Estadão
Barreiro, 9 de Julho de 2013

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