O Jogo da GlóriaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Julgo que todos nós, em pequenos, jogamos ao “Jogo da Glória”. Divertimento de crianças, que reunia à volta do tabuleiro bandos de meninos, lançando o dado e desejando ardentemente calhar numa das casas de avanço, bem como evitar as casas malditas – o Poço, o Inferno ou o Caranguejo.
Ora, foi do Caranguejo que me lembrei neste domingo em que o País ficou suspenso, à espera da decisão presidencial.
E lá veio ela, a decisão, contida, serena, sossegadora dos espíritos depois da turbulência dos últimos dias. Nem parecia emanar do autor da turbulência.
Pois a decisão foi a do Jogo da Glória: tendo caído na casa do Caranguejo, lá voltamos à Casa de Partida. Sem amuos, porque é feio ter mau perder.
Disse o Presidente da República que Portugal não podia dar a imagem de um País imprevisível. E aí acertou, porque, no fundo, tudo o que aconteceu era previsível.
No artigo “Explicar o (quase) inexplicável”, referi que as conversações girariam à volta de números; mas compromissos implicam cedências, e não foi isso que, aparentemente, se passou.
Não sendo mosca, nem dispondo de sofisticados aparelhos de escuta para saber o que se passou nas reuniões para o compromisso, limito-me a conjeturar, com base em indícios. E se, em política, o que parece, é, o Partido Socialista não iria aceitar, à porta fechada, um programa de governo que tinha rejeitado em público.
Assim, imprevisível só a posição do Presidente da República de 10 de Julho, uma vez que tudo o resto decorreu como seria previsível.
Sobre as razões dessa iniciativa, pode-se consultar o artigo acima citado.
Quanto às consequências, essas são mais que previsíveis: voltando à casa de Partida, tudo como dantes. Quem tinha ganho até aí, confirma os ganhos; quem perdeu, soma as perdas.
Para os que pensaram que Aníbal Cavaco e Silva tinha morto dois coelhos com uma cajadada, a realidade mostra apenas deixou um Coelho maltratado…
Se ainda houver dúvidas, veja-se o caso das tão faladas eleições: da rejeição das de 2013 e à recomendação das de 2014, passou-se para um silêncio ensurdecedor: por acordo tácito das partes interessadas, estas aceitaram que não haveria eleições antecipadas, e foi decerto com um suspiro de alívio que, no arco governativo, se encerrou esta espinhosa questão.
Adivinho no Leitor um travo de amargura; não é caso para isso.
Voltando ao Jogo da Glória, se tivéssemos caído ao Poço, teríamos que esperar que alguém nos salvasse; e se tivéssemos caído no Inferno… era o fim do jogo.
Nuno Santa Clara














