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Quotidianos

conversas literárias entre dois poetasPor Fernando Reis
Barreiro

A poesia pós-contemporânea não deve representar, digo, retratar, uma realidade falsa nem falsear a realidade, mas deve ser, antes, um questionar incomodativo, uma busca constante, um rejeitar da mera aparência. Deve ser agora "um não cessar de querer descobrir o essencial".

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conversas literárias entre dois poetas Por Fernando Reis Barreiro

Por Jornal Rostos

“conversas literárias”
(das cartas do Miguel Faia ao Alvaro Giesta, e alguns poemas) Parede, 01/04/2009

Meu caro Alvaro Giesta

Escrevo-lhe, hoje, para lhe dizer duas coisas. A primeira, e breve, e penso já ter-lho dito na primeira carta que lhe escrevi, é que "forçoso é evoluir"; mas não aceito que, evoluir, seja perverter a gramática. E, você comete aqui o grave erro de a perverter, eliminando o acento agudo duma palavra que é esdrúxula. Da "sua" palavra esdrúxula - do seu nome.

A outra coisa que lhe quero dizer, é que nunca concordei com as publicações que nos últimos, e longos, anos anquilosaram a nossa poesia. Colectâneas que por aí se publicam, sem obediência a qualquer critério temático, autênticas aberrações onde imperam verdadeiras nulidades poéticas. Importa, às editoras ora reinantes, que não são mais do que meras prestadoras de serviços que nem ao trabalho se dão de colocar no mercado livreiro as obras que editam, o lucro fácil a custo da exploração de quem escreve as obras. Obras que, na maior parte das vezes, não têm a mínima qualidade literária, eivadas que são de erros grassos que nem, no meu tempo, se davam na escola primária. E prometem esses pseudo-editores, a esses convencidos e emproados poetas, fazer as revisões das obras… mas como (?) se eles nem para eles sabem escrever bom português, quanto mais para o darem a conhecer à comunidade literária!
Talvez, por isso mesmo, porque no íntimo eu "queria" que alguma coisa mudasse em mim, eu "aspirava" a que alguma coisa mudasse em mim, nunca publiquei escritos meus, salvo um ou outro poema em publicações esporádicas em jornais muito pouco lidos. E, depois, porque esses editores que se julgam ter a fonte do saber e do poder na mão, faziam exigências com as quais eu não concordo nem posso concordar. Não podia nem devia concordar. Não posso nem devo concordar. Eram, e são, contra a minha maneira de ser e ver. E, ultimamente, ainda que tivesse publicado poemas que suscitam interrogação e inquietação, faço-o num jornal virtual, propriedade de um amigo meu sempre disponível a novos saberes.

Neguei mesmo - e até recentemente o fiz - a publicação duma antologia pessoal que caprichosamente guardo numa gaveta fechada a sete chaves, a que dei o nome "do meu Grito sufocado". A convite dum editor nortenho - lá dos seus lados - que apenas uma vez (uma única vez) me leu, me oferecia (coisa rara nos dias de hoje) 40% (quarenta por cento, veja lá bem... e abisme-se!) dos direitos de autor. Mas, como não há bela sem senão, exigia que eu pagasse metade dos quinhentos exemplares editados. Dava-me um porco mas eu em troca tinha que lhe dar, antes, um boi.
Prometi-lhe que sim... que lhe enviava o livro original em papel, mas pedi-lhe que me desse algum tempo para o sujeitar a alteração de estrutura frásica. Claro que isto foi uma desculpa esfarrapada...
Apenas pretendi, com esta medida, melhor dizendo, com esta desculpa, amadurecer mais a ideia de, ou alterar profundamente o texto ou eliminá-lo radicalmente e começar tudo de novo.

Porque entendo que, se eu me assumir como poeta a merecer mérito por quem me lê e critica - como pretendo e quero - tenho que escrever de ordem a não dizer algo que já conheço previamente, mas sim, escrever de ordem a suscitar, a mim e aos que me leiam, algo que eu mesmo ignoro; tenho que escrever de ordem a que "descubra" o que eu mesmo ignoro, de molde a "descobrir" o que é novo, o inicial, a pureza absoluta do desejo, que é o que desejo, afinal.

Perguntar-me-á, o amigo Giesta, o que entendo eu, afinal, por poesia pós-contemporânea. Pois bem, dir-lhe-ei que sei muito pouco, porque pouco ou nada se aprende com os que a escrevem. Mas, aqui vai o meu entendimento.
A poesia pós-contemporânea não deve representar, digo, retratar, uma realidade falsa nem falsear a realidade, mas deve ser, antes, um questionar incomodativo, uma busca constante, um rejeitar da mera aparência. Deve ser agora "um não cessar de querer descobrir o essencial". Coisa que raramente o era… A poesia, dos dias de hoje, deve dar-se a conhecer pelo que é, triunfando das trevas, erguendo-se do vazio para construir o seu próprio espaço. Mas não deve o poeta ficar fechado nos limites desse espaço, nessa cosmografia que criou. Ficaria incompleto, imperfeito. Seriam, o poeta e o poema, precários, provisórios.
Mas deixa tanto a desejar essa poesia, de hoje, que eu desejaria ver diferente, para ser a poesia do futuro, ao invés de ser um martelar constante nas mesmas pedras floridas do passado...

Por isso, meu caro A. Giesta é urgente que o poeta recomece, produza uma errância dinâmica em perseguição dum saber insatisfeito, porque nunca o saber deve ser dado como plenamente alcançado e adquirido. Ele, o saber, sendo uma evolução constante, é essência da própria vida. É como o respirar que a cada inspiração renova o sangue, de oxigénio, para que dê vida ao corpo. E, escrever, também é respirar!
Meu caro Giesta. Nesta azáfama, registe-se, então, o gesto inicial da escrita com novos desafios ao encontro da palavra renovada.

Atentamente, o seu
Miguel Faia

PS: Desta vez, deixe que lhe diga que começo a admirar a inovação que tem imprimido à sua escrita. Recordo, que em tempos, me deu a conhecer um poema (bastante longo, por sinal), e que ainda o guardo por aí, dum livro que anda a escrever e que pretende seja um tributo a um poeta, também ele inovador.
Hoje, congratulo-me, com alguma aprendizagem que terá adquirido da leitura desse poeta maior; mas deixe-me, que lhe faça chegar às mãos esse mesmo poema, que fiz passar pela minha oficina da palavra, que também é sua, sem desvirtuar o sentido do seu. Dê-me a honra de, não lhe transcrevendo, aqui, o seu anterior, que isso não era desmerecer o produto final do seu trabalho oficinal, que penso o irá fazer, lhe mostrar que a escrita final deve ser, sempre, o produto de uma constante lavra e renovação.
A palavra, que aqui deixa subentendida, é sua.

“Da sombra um grito!...

Dilacera-a
rasga-a até ao infinito,
abre-lhe as entranhas
até onde se alimenta e nasce
a Luz verdadeira

Pare-a
intacta e inteira
íntegra
pura!

Muitas vezes se afunda...
mas
afundando-se
se levanta
quando
todos pensam que já se afundou

Ainda respira
porque
de pura
essa Luz
que é essência,
dura!”

❶A esta carta, tal qual como à primeira, houve reacções aquando da sua publicação na respectiva página do poeta, no facebook, da parte de quem anda nestas coisas da escrita, metido.
São de Ana Mascarenhas as palavras: “Li e gostei, dessa ortonímia perante si, autor e heterónimo, também, e, curiosamente veio-me à cabeça uma coisa: Em termos literários a ortonímia é um saber, uma sapiência, faz parte da cultura; no entanto, posso apelidá-lo de “bipolar” por ter duas personalidades que se juntam num único ser, que, em termos médicos é constituído como uma doença… Curioso…como pode ter dois significados aparentemente, claro, com significantes diferentes, mediante a classe em que se insere (literária ou medicina). Continuo a gostar de o ler e, confesso, mais a si (Miguel Faia) do que ao Alvaro (Giesta), que eu sei não se ofender por dizer isto…”

(Convém aqui esclarecer que ainda a Ana Mascarenhas não sabia que Alvaro Giesta não era o ortónimo de Miguel Faia mas, tão-somente, mais um pseudónimo, o segundo do verdadeiro criador dos mesmos – Fernando António Almeida Reis) Em consequência, não tarda a réplica de Miguel Faia ao comentário da comentadora. Dirigindo-se-lhe “Obrigado pelo seu saber, em me transmitir algo desse seu saber. O homem é um ser em permanente evolução (já dizia Darwin na sua “Teoria da Evolução das Espécies”). Teoria que se aplica a tudo, no meu entender. À evolução do ensino, por exemplo, se bem que, e ainda no meu entender, esta evolução tenha dificuldade em sair da segunda velocidade. E, ensino, também é poesia, também é literatura, também é saber literário. Neste campo, também a teoria do velho botânico, aplicada aqui, se dispersa entre velocidade de carros antigos que não saem dos 30 km/h e dos modernos supersónicos, voando por vários céus a velocidades-luz, mas que no campo verdadeiramente literário, e na vertente poesia, nada acrescentam ao já dito. Ou, antes, talvez assim esteja mais certo, nada dizem. Procuram-se rimas forçadas, e a poesia, para o ser, não requer, necessariamente, rima; repetem-se temas, ou antes, repisa-se sempre o mesmo tema “o velho amor do velho romantismo, tão ultrapassado”, sem desprimor para os poetas que o cantam, não cuidando em o refinar neste cantar, dando outra exploração literária à palavra; constrói-se, tanta vez, na tentativa de dar novo uso à palavra, o verso desconexo, sem cuidar de o analisar, antes de o pôr na rua, para ver se o escrito faz sentido e se oferece, ao crítico, matéria digna de julgamento literário.
Argumentar-se-á que a liberdade poética o admite. Pois sim, mas liberdade poética não é anarquismo poético que tantas vezes enferma de erros gramaticais que as editoras-prestadoras de serviços não cuidam em corrigir nas revisões que ficam por fazer, limitadas que são no saber do staff editorial, tantas vezes casal marido-mulher com uma quarta classe mal feita, encaixadas no espaço caseiro em que funcionam, exíguo e atafulhadas de caixas de livros por vender à espera do lucro fácil.”

© Miguel Faia, in “Muralha inquieta dentro de mim”, a publicar
(não escrevo pelas normas do novo Acordo Ortográfico)

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