O viadutoNuno Santa Clara
Barreiro
Desde que a coisa funcione, ser provisória ou definitiva, perpétua ou temporária, tanto faz: estamos desenrascados.

Por Jornal Rostos
Quem ainda hoje passa junto à estação de Alcântara-mar, em Lisboa, não pode deixar de notar um viaduto que lá está, sobre a linha de caminho de ferro, permitindo passar direta e comodamente para a área junto ao rio.
Este logradouro tem o seu antecedente histórico no Aterro, contíguo do Cais do Sodré, e que era um dos pontos de deambulação e refresco da população de Lisboa; o outro era o Passeio Público, atual Avenida da Liberdade. Encontramos referência ao Aterro nas páginas de vários escritores do século XIX, entre os quais Eça de Queirós.
Hoje essa área é mais conhecida por outras razões. A diminuição do tráfego de passageiros fez decair o movimento, as gares marítimas foram destinadas a outros fins, enfim toda essa zona portuária de viu reclassificada como “as Docas” – esse poderoso íman da nossa juventude, e não só.
Mas o que tem de especial o viaduto?
Foi construído nos anos 60, salvo erro, e com uma tecnologia pouco habitual. Foram primeiro colocados os encontros e as bases dos pilares, e mais tarde foi montado o tabuleiro metálico, em menos de três dias, pela Engenharia Militar.
Belo exemplo de cooperação civil-militar!
A razão desta escolha foi tratar-se de uma obra provisória, destinada a ser demolida alguns anos mais tarde, sendo substituída por um viaduto definitivo, em sólido betão e com todos os primores da arquitetura.
Só que… mais de meio século andado, o provisório parece ter ficado definitivo.
Assim somos, nós os portugueses, que somos do Ocidente (assim o afirmou Vasco da Gama ao Samorim de Calicute).
Desde que a coisa funcione, ser provisória ou definitiva, perpétua ou temporária, tanto faz: estamos desenrascados.
E assim continuam os estudos sobre a solução definitiva da ligação ferroviária de Alcântara, ainda sem conclusões, ainda sem soluções, e ainda menos execuções.
E os lisboetas continuam circulando sobre o viaduto provisório, dando um saltinho em cada junta, contornando ângulos estranhos, derrapando sobre revestimentos pouco fiáveis; mas sempre andando, até ver…
Como andando vão os nossos filhos e netos em escolas provisórias, porque o Plano dos Centenários foi isso mesmo: uma ação comemorativa. E continuam a ser feitas escolas provisórias.
Na busca de informação sobre o viaduto de Alcântara, deparei com um viaduto homónimo na cidade do Rio de Janeiro. Mas lá, o progresso não parou, e esse viaduto tem os dias contados, mesmo não sendo provisório.
Segundo li na internet, o Sr. Vereador Jorge Mariola (sic), do município do Rio de Janeiro, encabeçou um movimento para a demolição do viaduto carioca. A coisa é recente (maio deste ano) e os resultados ainda não são conhecidos.
Será que, para se chegar ao mesmo resultado, nos falta um vereador Mariola?
Uns sorrirão, outros ficarão indignados; os cínicos dirão mesmo que Mariolas há muitos.
Mas que, entre nós, as obras provisórias tendem para definitivas, isso é fato que todos constatamos.
Falta do tal, ou excesso dos tais?
Nuno Santa Clara














