DIMENSÃO POLÍTICA DO FENÓMENO DO ABSTENCIONISMO ELEITORALPor José Caria
Montijo

Por Jornal Rostos
Como explicar o abstencionismo crescente ?
O problema é , pelo menos, duplo : - não sómente reflete uma crise dos portugueses perante a esfera política, mas é também devido a fatores mais sociológicos.
O abstencionismo sistemático pode ser dividido em duas faces : o abstencionismo da indiferença, da desconfiança e o abstencionismo contestatário . Dito de outra forma, o abstencionismo
passivo e o abstencionismo ativo , ao nível das ideias políticas, ou, ainda, para utilizar outros termos, podemos falar de abstencionistas " por incompetência" e " por convicção" .
Podemos associar, por conseguinte, esta distinção com as distinções de ordem social : - o primeiro abstencionismo pode estar relacionado com classes mais desfavorecidas, excluidos,marginalizados, contrariamente ao segundo que é o de classes sociais mais elevadas, priveligiadas, de intelectuais, etc...
Podemos constatar, nos diferentes abstencionismos, oscilação entre desinteresse crescente e desconfiança ; Desinteresse por diversas razões, como sejam o fato de os eleitore terem a impressão de ouvir os mesmo discursos, de assistir a debates estéreis, ano após ano, eleições após eleições ; sem que possamos falar de desinteresse real, os cidadãos, as cidadãs,percecionam mal a pertinencia duma eleição, o interesse de se motivar para fazer a sua própria escolha política face a circunstancias em que políticos (não todos) parecem ter todos o " mesmo discurso " . Políticos moderados propõem " soluções " que , tantas vezes , podem parecer similares na globalidade ao " eleitor médio ".
O "eleitor médio" não dispõe de todas as cartas para poder fazer uma escolha refletida e objetiva na hora da eleição : - o voto é uma forma de exprimir as suas ideias políticas, por via de um Partido, por via de um Candidato ; Ora , ter ideias políticas necessita de uma certa destreza de/na vida da sociedade , dos assuntos públicos, da política . O voto é sempre mais ou menos subjetivo , dirige-se, tantas vezes, ao melhor discurso, ás melhores ideias, ou á imagem mais atraente .
Alguns dos abstencionistas ( da indiferença) não se sentem capazes , preferem abster-se a sentir-se culpados de ter feito uma escolha política infundada ou iníqua ; A falta de confiança en si, é nestes casos, a primeira razão de abstencionismo.
O caráter mais ou menos decisivo dumas eleições pode levar o cidadão a votar ou a não fazê-lo . Daí as disparidades nas taxas de abstenção entre eleições de natureza deferente : - eleições presidenciais, eleições legislativas, eleições europeias, eleições locais .
Podemos e devemos ter cada vez mais consciencia que a crise dos portugueses em relação à política - que se manifesta em crescimento das taxas de abstenção nas eleições - é múltipla ;
Se pode decorrer da perda de perceção pelo eleitor da pertinencia dos discursos dos políticos que esbatem diferenças entre direita e esquerda , se, por outro lado, está também ligada ao sentimento crescente de "incompetência" do eleitor , a sua capacidade de fazer escolhas justas, ou , ainda,por desconfiança e hostilidade crescente do eleitor face aos políticos e aos Partidos indispensáveis à Democracia .
Alguns portugueses abstencionistas dizem "sofrer" dum sentimento de não representação política . Isto por quatro razões principais . A alternancia no Poder revela-se , em diversos casos de medidas políticas, inútil , quando se apercebem que grandes problemas ,como o Desemprego, permanecem por resolver. Os interesses divergem entre eleitores e políticos. A multiplicação de escândalos , de negócios e negociatas financeiras e outras, é outra das razões de desconfiança. Casos de corrupção, branqueamento de capitais,.afastam eleitores de eleições . Querelas de Dirigentes partidários num mesmo Partido, afrontamento de grupos,grupinhos,fações, tendências podem afastar políticos dos problemas reais da sociedade o que os distancia dos eleitores e, estes das urnas.
O abstencionismo e a participação contestatária ( votos extremistas, associações, manifestações...) estão, de algum modo, em coerência com o desencantamento crescente aparente de muitos Portugueses face à Política .
Explica-se, por vezes, o abstencionismo eleitoral por uma aparente falta de integração do individuo na sociedade. O abstencionismo eleitoral seria o produto duma insuficiente integração politica ligada a uma fraca inserção social .
Se podemos refletir sobre a relação inserção social e seus diversos fatores ( idade,categoria socioprofissional, sexo, meio urbano/meio rural) e abstencionismo eleitoral , é também possível interrogarmo-nos sobre a relação integração social/abstenção eleitoral (pertença socioeconómica e sociogeográfica, pertença religiosa etc.) .
Por ora ( o fenómeno é muito mais complexo) podemos , para reflexão posterior a desenvolver, identificar 3 ( três) fatores principais do abstencionismo eleitoral , a saber, circunstâncias individuais e materiais, o fator político ( conforme os desafios da eleição em causa,candidatos propostos,conjuntura politica geral do momento) ,e/ou a expressão dum desinteresse aparente pelo mundo da Política ( hostilidade à política e/ou ao sistema representativo,verdadeira contestação politica à estrutura e à conjuntura), e, finalmente, o fator social ( integração na sociedade,marginalização do individuo etc.). Tendo-se, também, em atenção que existem numerosas correlações entre abstencionismo politico e social : - grupos sociais abstencionistas mal integrados na sociedade são, geralmente, aqueles que exprimem um desinteresse geral pela Política, e/ou hostilidade face ao regime representativo.
José Caria














