A ILUSÃO DOS REITORESPor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Há já muitos anos, no meu segundo ano universitário, tive a oportunidade de ser aluno do académico, José Pinto Peixoto, de quem me havia tornado um bom amigo, graças, acima de tudo, a José Sebastião e Silva, que havia conhecido aí pelo meio do meu sétimo ano liceal.
Um dia, no seu gabinete do Instituto Geofísico Infante D. Luís, por acaso também na companhia do académico José Tiago de Oliveira, este de pé, junto à janela, eu e Peixoto sentados, pude ouvir deste último, a propósito de uma qualquer bernarda que estaria a decorrer ao nível estudantil, que os catedráticos são pacatos e não se manifestam, mesmo discordando, porque atacar, só em manada.
Ri-me bastante, com a aquiescência e acompanhamento de Tiago de Oliveira, mas nunca esqueci este ensinamento do meu amigo e professor, José Pinto Peixoto. E foi dele mesmo que me recordei há dias, quando António Rendas, como Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, em seu nome e nos da estrutura a que presidia, se determinou a cortar contactos com o Governo, neste caso através do Ministro da Educação, Nuno Crato.
Tenho que dizer, porém, que o modo como os reitores se relacionaram com Nuno Crato esteve a anos-luz de ser o adequado, nunca tendo em conta a origem política do ministro – o Partido Comunista Reconstruído – e o lugar a que, nestes dias conturbados de espraiamento da ditadura neoliberal, ele mesmo foi parar. E foi pena que a generalidade dos reitores, e mesmo dos nossos académicos – excetuo os que passaram de lutadores contra Salazar e a II República para defensores de quase tudo o que existia no seu tempo –, não tenha assumido a lógica posição contra muitas das medidas utilizadas contra os professores do ensino não superior, bem como a doença dos exames, já a caminho da prática, desde sempre condenada por quase todos, do histórico regime constitucional da II República.
Hoje, os reitores das nossas universidades, mas também os académicos dos nossos politécnicos, devem olhar para o que tinham com José Mariano Gano nesta pasta, comparando tal com o que hoje se está a passar, deitando ainda mão da primeira derivada da função inerente ao desenvolvimento que vinha tendo lugar. Essa derivada, como só agora terão percebido, mas que seria sempre muito simples de prever com um ministro como Nuno Crato, é já claramente negativa.
Interrogo-me hoje sobre quantos destes reitores terão lido uma entrevista de Alberto Ralha ao jornal, O PONTO, dirigido por Armando Baptista-Bastos, onde foi tratada a hipótese da diminuição das verbas do Orçamento de Estado à medida que as propinas fossem crescendo. E quem diz propinas, diz receitas extraordinárias de todo o tipo. Era o tempo de Vinagre à frente da Associação Académica de Coimbra e daquela cena dos rabos-ao-léu.
Pois, aí está a resposta: se quem cala consente, não poderia deixar de se vir a cair numa situação como a atual, para mais com esta Maioria-Governo-Presidente, com toda a carga de distúrbios constitucionais que se vem vendo. Mas, enfim, cá estarei para ver se aquela máxima de José Pinto Peixoto se mantém verdadeira nestes dias conturbados para a vivência do Estado Democrático de Direito. Vendo bem, pode já ser tarde, até porque só agora se poderá testar bem o seu valor de verdade. Veremos o que nos trará o futuro.
Hélio Bernardo Lopes














