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Quotidianos

Ai dos vencidos!Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Será isto o tão apregoado liberalismo? Não me parece que fazer o Estado (isto é, os contribuintes) pagar 30 milhões para entregar, de mão beijada, uma empresa cuja viabilidade não oferece grandes dúvidas, não parece ser um exemplo de não intromissão desse Estado na economia privada… É antes a aplicação do velho princípio da divisão de competências: para os privados as receitas, para o Estado a despesas.

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Ai dos vencidos! Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta frase, típica dos tempos bárbaros ou da época dos piratas, parece ter voltado a estar na moda. Não explicitamente – isso seria de um tremendo mau gosto – mas na prática diária, e mesmo em frente das câmaras de televisão, ou nas páginas nobres dos jornais.
Como assim? Já não haverá sentimentos cristãos nas guerras que assolam a Humanidade, mau grado o anunciado Fim da História?
Clausewitz, logo no primeiro livro da sua obra monumental Vom Krieg, dizia que era um absurdo tentar introduzir um fator humanitário na guerra; sendo esta, por definição, uma ascensão aos extremos, porquê meter algo e humano e racional no que era irracional e desumano?
É certo que, adiante, o mesmo autor considerava que, havendo uma ação recíproca entre os beligerantes, o modo como se trata o inimigo leva o mesmo inimigo a responder de forma, por assim dizer, simétrica. Ou seja, se tratar bem os prisioneiros de guerra, o adversário terá a mesma conduta. O que explica, em parte, porque é que a bomba atómica foi lançada sobre o Japão, e não sobre a Alemanha.
Passando a outro tipo de guerra (quase tão mortífera), vale a pena recordar a frase de um ilustre personagem, sobre a atual conjuntura: isto é uma guerra entre ricos e pobres, e os ricos estão a ganhar.
Guerra é guerra, e esta declaração de intenções tem de ser levada a sério. E, como na análise de Clausewitz, há que ter em atenção o verdadeiro significado da “humanidade” nesta guerra: trata-se de uma atitude calculista, e não de uma imposição de ordem moral, e tem os por limites a utilidade, e não a ética.
Passando à Defesa, não em termos futebolísticos, mas à Política de Defesa, fomos agradavelmente surpreendidos com a declaração do respetivo Ministro sobre as possibilidades de desenvolvimento da nossa indústria do ramo, após décadas de destruição e desmantelamento. Qual seria o primeiro passo?
Ele aí está: ao relançamento dos Estaleiros de Viana do Castelo, essa empresa que parece ser o espelho da Nação, tantas as vicissitudes que tem atravessado.
E como se fará esse relançamento? Despedindo toda a gente, independentemente das suas capacidades e competências, uns para a reforma, outros para a rescisão, outros ainda para o desemprego puro e duro. Tudo pago pelo erário público, que para isso terá de encontrar meios - os meios que faltam noutros lados. Fala-se em trinta milhões de euros…
Em contrapartida, a nova empresa receberá as instalações e poderá recrutar novos trabalhadores (ou alguns dos antigos). Estes estarão livres do pecado original, virgens de reivindicações, sem sombra de sindicalismo.
Será isto o tão apregoado liberalismo? Não me parece que fazer o Estado (isto é, os contribuintes) pagar 30 milhões para entregar, de mão beijada, uma empresa cuja viabilidade não oferece grandes dúvidas, não parece ser um exemplo de não intromissão desse Estado na economia privada… É antes a aplicação do velho princípio da divisão de competências: para os privados as receitas, para o Estado a despesas.
E, quanto ao pessoal da empresa (embora se possa considerar que possa ter pecado por irrealismo, ou mesmo angelismo) a receita é a dos tempos bárbaros.
Ai dos vencidos…

Nuno Santa Clara

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