A Escola Básica e Secundária de Santo António e os rankingsPor Maria Jorgete Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Foi com alguma preocupação que vi ser divulgada a posição ocupada pela minha escola, no último lugar do ranking, com base nos resultados obtidos a nível dos exames nacionais do ensino secundário.
É certo que qualquer pessoa mais atenta saberá que estes rankings valem o que valem, que não têm em conta alguns factores que são determinantes para as posições alcançadas, ou seja: a desigualdade entre escolas públicas e privadas, as diferenças entre escolas de grandes centros urbanos e as pertencentes ao interior do país, assim como entre as escolas que abrangem comunidades educativas mais favorecidas e outras que coexistem em bairros ditos problemáticos, inseridos normalmente na periferia das grandes cidades, etc, mas nem todos saberão das verdadeiras intenções que subjazem por trás destes processos de seriação.
Como nota à parte, é de salientar ainda que metade dos alunos que realizaram as provas de exame, na escola, eram externos o que vicia a posição no ranking e, ainda, que os resultados não foram os mesmos a nível do sexto e nono anos, onde ficamos posicionados em melhores posições
Outras questões, já mais específicas, se colocam como, por exemplo, a necessidade de uma explicação sobre a razão da discrepância entre as notas da frequência e as notas dos exames. Quem é professor ou pai sabe que, para obter boas classificações no exame, principalmente na área das disciplinas das ciências exatas, não basta ser bom aluno, aplicado e inteligente. Para obter resultados que permitam ingressar no Ensino Superior, em algumas faculdades e cursos, é necessário recorrer à ajuda extra de um explicador. E isto levanta a velha questão do grau de dificuldade das provas face aos currículos e critérios de avaliação e das próprias competências avaliadas na frequência e nas provas de exame, o que nos remete para o funcionamento do próprio Ministério da Educação e dos seus departamentos estanques e sem comunicação e articulação entre si.
Mas voltemos à nossa escola. É necessário, em primeiro lugar, saber onde fica situada, saber que é uma escola TEIP, ou seja, está inserida num Território Especial de Intervenção Prioritária. E isto quer dizer que a área habitacional de onde provêm os nossos alunos, inclui um bairro degradado, a Quinta da Mina, e a Cidade Sol, onde se encontra também uma comunidade com carências a vários níveis. É a zona mais problemática do concelho do Barreiro, no dizer da própria autarquia.
São alunos que revelam um grande nível de absentismo, principalmente os oriundos da Quinta da Mina, e problemas comportamentais de alguma gravidade.
Mas nunca a escola virou costas a estas questões. Sempre procurou resolvê-las com a generosidade de todos, professores, funcionários, associações de pais, alunos, autarquia. Inclusivamente com apoios que visavam melhorar as condições de vida dos alunos e até das famílias, como a distribuição de pequenos-almoços, preparados com o voluntariado de professores, alunos e funcionários.
Inserida num território escolar de multiculturalidade, sempre foi uma escola aberta às diferenças, valorizando o que cada um tem a dar em prol do colectivo. Este aspeto é bem evidente na Mostra de Atividades, aberta à comunidade, que se faz todos os anos.
E temos também de dizer que sempre a nossa escola acolheu os meninos e jovens com dificuldades de aprendizagem e mesmo com deficiências mais profundas. Aqui, temos de referir o excelente trabalho de todos os que contribuem para o funcionamento da sala de multideficiência, muitas vezes em condições de escassez de meios materiais e humanos.
A minha escola sempre se preocupou com os alunos, com o seu bem-estar, a sua formação e o seu futuro. Para isso investiu em cursos profissionais, currículos alternativos, vários projectos e parcerias. Com muitas iniciativas que visam melhorar a qualidade das aprendizagens (apoios, planos de melhoria) e minorar os problemas a nível comportamental (gestão de conflitos, mediação) além dos apoios a nível de orientação profissional e psicológico.
A minha escola é uma escola colorida, multicultural, aberta, inclusiva. Que procura colmatar o vazio, a inoperância e a degradação a que o governo deste país quer votar a escola pública. Este ranking é mais uma acha para a fogueira na intenção camuflada de promover o ensino particular, arrasando o ensino público. Reduzindo o trabalho das escolas a meras estatísticas, esquece o esforço e a dedicação de todos, liberta-se de responsabilidades, escamoteia, com a pretensão de chegar aonde quer.
Maria Jorgete Teixeira














