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Quotidianos

Esta língua que eu souPor António Sousa Pereira
Barreiro

É isto o meu país, no mundo, é esta língua que eu sou,
uma voz que abriu portas à modernidade,
que rasgou as sombras de florestas de África,
que cravou pilares na América,
e espalhou amor na Ásia...

4 min de leitura
Esta língua que eu sou Por António Sousa Pereira Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta língua que eu sou

Eu podia escrever palavras de apelo à revolução,
ou, porque não, palavras a falar de amor e paixão,
podia, até mesmo, lançar apelos aos anjos, esta luz,
que brilha por dentro do meu coração, acreditando,
que todos os meus versos, eram usados como armas,
de combate, podia mesmo, imaginar que os meus versos,
inscritos no mármore do tempo, amanhã seriam lidos,
relidos, por outros, que tal como eu, sentiram emoções,
viveram por dentro do tempo vivido, porque afinal,
a poesia não é mais que o tempo sentido por dentro,
de palavras vincadas no nervos do coração vermelho.

Estou aqui, hoje, ao fim da tarde, em mais um dia,
neste tempo que é o único, aquele que me é dado para viver,
escrevo com a consciência que amanhã, será tarde,
e que é, agora, hoje, que tenho que rasgar os nervos,
forjar todas as palavras, todas as sílabas, todos os sons,
moldadas com este ferro quente de todas as angústias e sonhos,
porque, sem dúvida, é na vida que floresce a poesia e os sonhos dos poetas.

Escrever. Imaginar. Sentir-me a mim, no meu país,
sentir-me criança nas margens do rio, olhando o luar,
ou adolescente vendo o sol nascer na serra e no mar,
caminhar pelas bermas da estrada, ou mergulhar nas águas do rio,
sentir que sou, português, homem nascido nesta língua,
de muitos mil, espalhada por recantos do planeta,
descoberto, encoberto, porque nós somos este canto,
milenar de olhos postos no mar, esse mar, feito poema,
esse poema que se escreve Brasil, Angola, Moçambique,
Guiné, Cabo Verde, São Tomé ou Timor, um poema,
feito de gritos de dor, de paixão, de luta, de tortura, de amor.

Um poema que se escreve Portugal.
Este é o meu poema, esta terra parida no meu pensamento,
terra que amo, terra que sinto cá dentro, no Minho,
a dançar, nos cheiros, nos sabores, nos rostos,
no pôr-do-sol nas planícies do Alentejo,
ou naquela terra, onde um dia te beijei na praia,
matando por dentro o desejo de sermos nós,
amanhã, continuados em filhos nascidos do nosso sangue,
em gritos de ternura, mergulhados nos sons do Bolero de Ravel.

É isto que eu sou, energia, força sonhadora que me rasga o peito,
alegria de cantar, ser eu e tu, construindo os dias com os outros,
sempre com os outros, porque ninguém se faz a si próprio,
por si só, nós, todos nós, somos floresta,
e floresta é feita de uma e mais uma,
e mais outra, muitas árvores, de muitos tons e diferentes,
mas ela, a floresta, só é linda, porque é assim, feita desse florido,
de muitas cores e raios de sol, que rasgam as clareiras,
unindo na paisagem a unidade na diversidade.

É isto o meu país, no mundo, é esta língua que eu sou,
uma voz que abriu portas à modernidade,
que rasgou as sombras de florestas de África,
que cravou pilares na América,
e espalhou amor na Ásia,
pregado na voz de Francisco Xavier.

Este é o meu país de António Vieira, de Camilo,
de Pessanha, de Florbela, de Pessoa – o Fernando,
feito de muitos nomes, que são um nome só,
na poesia da loucura, no lirismo, de tudo o que nós somos
e não somos, de tudo o que está nas ondas do mar,
essa mensagem que, neste ano dois mil e catorze,
continua real, bem real, tão real, que basta,
findar este poema e repetir esse grito:
Sim, cumpriu-se o mar…
FALTA CUMPRIR PORTUGAL!

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