Nesta farsa perfeita à volta de mimPor Alvaro Giesta

Por Jornal Rostos
Nesta farsa perfeita à volta de mim
Estou já desperto mas durmo ainda.
Sinto meu corpo dorido
e ferido
desta dor que não finda.
Estou febril de pensar.
Febril de ser e de não ser,
também.
Febril por viver e não saber viver
de não saber sair deste torpor que me entorpece
e adormece a alma.
Nada me acalma já!
Vivo assim…
Tudo está onde não está
tudo é incorpóreo, estagnado e parado
dentro de mim.
Quero acordar deste meu sono
e continuar eternamente em vigília
neste meu sonho de não saber
sonhar.
Sempre o mesmo querer
entre estes meus dois mundos
de mim perdido,
entre a profundeza de um céu
distante
e a lonjura turbulenta de um mar
ferido.
Um e outro dentro de mim interpenetram-se
e numa mistura de sonhos
em luta constante completam-se
sem qualquer sentido.
Sopra um vento de cinzas perdidas
no ar
mil propósitos mortos sobre o que sou
quando de mim
desperto meio absorto.
Chego a pensar que é coisa ruim
que cai dum céu sem remédio
porque neste meu sonho mórbido
quase morto
já nem sei gerir este tédio.
Inerte, uma angústia manuseia-me a alma
por dentro.
Entorpeço-me.
Deixo-me boiar num oceano distante
e dormir.
Nem sei se sinto como toda a gente
sente,
muito menos se quero sentir.
Já nada me acalma!...
De tudo me minto.
Aborreço-me
do que faço e não faço
já nem me levanto se me sinto
a cair.
Nesta espécie de realidade que surge
neste sonho acordado
perco-me de mim
ausento-me de tudo
e de tudo me sinto algemado.
Canso-me num fogo que arde e me consome
invisível
na bruma da tarde;
canso-me de ser como sou
de dar-me como me dou
neste mundo indivizível.
Perco-me nos passos do chão
que piso…
Sonho e perco-me neste enredo de sonhos
que sonho
nesta ânsia passiva
que nem sequer é coisa nova.
Abomino-me até ao cansar-me
dos sonhos que sonho na vida
e não realizo.
Sinto esta farsa perfeita
à volta de mim, que me envolve
e estreita
e me empurra p’ra cova.
Alvaro Giesta (pseudónimo)














