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Quotidianos

Convicção e DúvidaPor Alvaro Giesta

Um poema com o meu abraço...

2 min de leitura

Por Jornal Rostos

Também não quero nada.
Além disso, como aspiro a nada
diferente daquilo que quero ser, e sou,
é lógico que não queira coisa nenhuma.
Basto-me assim. – penso!
Mas reconheço que, conquanto não queira nada,
tenho em mim uma angústia de fome
de querer ter algo em que acreditar na vida.

É uma angústia desconhecida, que me consome,
e domina as entranhas. É uma ânsia
de viver indefinidamente a vida,
se bem que muitas vezes o tédio me faz
desejar não viver.
É como se, acordado, dormisse inquieto
desassossegado,
metade do tempo a dormir e outra metade
a sonhar.

Eu sei que sonho, definidamente com o indefinido.
Deixem-me sonhar assim.
Ninguém se interponha com teorias da treta
entre aquilo que sou e sonho
e o que não sou nem sonho de mim.
Aquilo que sonho ou não sonho
acordado,
apenas me diz respeito a mim
e não preciso para minha defesa
qualquer advogado.

Se me fecham portas e me correm cortinas
para me coarctarem todas as hipóteses
de ir por ali a meu bel prazer,
digo-lhes que nem que me esfarrape todo
eu quebro todas as muralhas e algemas
e vou por onde quero. Vou por aqui,
mesmo que aqui fique a apodrecer.

Não sei que destino me está reservado.
Nem sequer sei se o meu barco
que há muito navega em encapeladas vagas
como se por divino castigo,
algum dia chegará, são e salvo e incólume
a qualquer porto de abrigo.
Muito menos sei se ainda tem leme
neste seu navegar solitário.

Sei, isso sim, que ainda regem o seu navegar
as coordenadas traçadas por mim.
E quando não for assim, então que vá ao fundo
de vez, vá ao fundo e me arraste consigo
para o abismo eterno no seu mergulhar.

Isto tudo, que nem sequer será literatura
que permita qualquer interpretação filosófica
da sua leitura,
para dizer que no fundo do meu espírito há um sonho
que sonho, eternamente sonho,
poder ver resolvido.

E neste sonhar permanente,
nesta incredulidade em que vivo que me atormenta
e corrói as entranhas
derrota por dentro e desmantela a alma em restos
de mim,
vive uma angústia fragmentada em questões
irresolúveis, de crer ou não crer,
que a vida só faz sentido se existir um ser superior
diferente de mim
tenha ele o nome que tiver.

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