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Quotidianos

Há dias assim…Por Alvaro Giesta

Com um grande abraço do sempre
“Pai da Marisa e da Vera”

3 min de leitura

Por Jornal Rostos

Há dias assim…

…em que me sinto projectado como uma mola
para além do infinito.
Mas volto a mim, perscruto no meu interior
e reparo que é inútil fugir. Cumpre-se o Destino.
Por isso, opto por ficar aqui, parado, estático no tempo
enquanto a outra parte de mim
teima em partir para o incerto,
o indefinido, o lugar nenhum. Cumpre-se a sina.

Quando o sol da tarde já morto no seu esplendor,
tinge de sangue rubro a linha do horizonte
para lá das janelas abertas dum mar de sonho distante,
medito nos dias em que o céu e o mar se fundem num só.
Extravaso-me de dor para dentro de mim e sofro.
Sinto as horas correrem nesta imobilidade em que vivo,
Vazia. Sinto-me impotente por não conseguir segurar
aqui o tempo e impedi-lo de partir. Queria segurá-lo,
algemá-lo comigo e poder dizer-lhe que aprendi com ele
mistérios de vida.
Experiências inúteis que servem apenas para meditar…
Que não são remédios para cura nenhuma…

Há dias chuvosos e de sol, dias primaveris e verões
dias de todas as estações…
Mas os dias piores são aqueles que nascem
sem serem de estações de ano nenhum.
São dias cinzentos. Dias de treva cinzenta.
Mórbidos, mesmo.
São dias que não pertencem a qualquer estação do ano.
São apenas os dias das estações do calendário
da minha vida. E doem.
Doem esses dias cinzentos que começaram no tempo
longínquo em que ainda pensava que era possível
caminhar erecto, de pé, e romper essa espécie de treva
cinzenta que me penetra até ao mais longínquo osso
deste corpo coalhado de mim.

Há dias assim.
Dias cinzentos em que me projecto, em imagem,
para dentro das imagens que nascem em mim,,
e me busco em memórias passadas.
– Tristes imagens que já não são de futuro
nem coisa nenhuma que seja luminosa. –
E envelheço no tempo. Devagar, mas envelheço!
Envelheço como o anoitecer que cai devagar neste cais.
E neste meu envelhecer, metade de mim envelhece comigo
– é a parte que prefere ficar –
e a outra metade do meu ser teima em partir.
E tem já saudade desses lugares que nem conhece
de lugar nenhum, mas teima em visitar.
Estou dividido por dentro.

Alvaro Giesta (pseud)
http://www.alvarogiesta.com/
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_europa.asp?ID=662

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