PALAVRAS AO VENTO...Por Helga Pereira

Por Jornal Rostos
PALAVRAS AO VENTO...
Ouves-me Vento do Norte?
Consegues seguir o meu pensamento Vento do Sul?
Ventos Uivantes espalhem estas palavras por entre a maresia,
Libertem-nas nas asas dos pássaros como uma música celestial,
Cantem-nas aos homens sem escrúpulos ecoando o seu sentimento,
Passem-nas por todo o ser que um dia ousou sonhar.
Escutem... Não se percam no meio das palavras...
Não as entendam como uma profecia, mas sim como meras palavras soltas ao som da brisa...
Escutem...
Observem...
Sintam...
Ouçam...
A vida é algo misterioso...
A forma como cada ser a encara, leva a rumos diferentes.
Um escritor escreve livros,
Um pintor pinta quadros,
Um pescador pesca peixes.
Todos são diferentes, nenhum é igual.
Nem todos são vistos da mesma forma:
Um cão vadio nunca tem os mesmos privilégios que um cão de raça,
Um gato de rua é somente mais um vagabundo.
Mas o mar é admirado por todos. Ninguém o reclama como seu e todos o respeitam.
As memórias vãs de um homem que caminha sem fim,
Os sacrifícios fúteis de uma vida sem destino definido,
De que valem neste Mundo? Nada. Somente nada.
A procura incessante por um dia melhor,
A busca por algo diferente na vida,
O desejo de querer mais, mais e mais...
Para quê?
Para que servem os momentos de escrita para um escritor?
Ou o pintar sobre a tela para um pintor?
Ou ainda a faina para um pescador?
Que ganham com tudo isso?
Nada a não ser viver um dia atrás de outro à espera de um dia melhor.
Nada atrás de nada.
Nada que é tudo, pois este nada é tudo o que têm:
É o seu modo de vida, a sua maneira de viver,
Escrevendo, pintando, pescando...
Tudo é a arte da vida...
O escritor escreve um livro pensando em quem o vai ler.
O pintor pinta um quadro lembrando quem o vai admirar.
O pescador pesca o peixe para se sustentar a ele próprio e aos outros.
Os três abominam o mar, ao mesmo tempo que o adoram.
Os três admiram o mar que não podem possuir.
Os três respeitam o mar pela sua audácia, pela sua força, pela sua beleza.
São como os cães vadios e os gatos de rua:
Somente mais um entre tantos outros.
Mas esses cães e esses gatos sem um caminho definido são felizes com o que têm.
Nada mais querem a não ser resistir ao mundo dos homens.
Querem acordar com os primeiros raios de Sol e adormecer ao som da noite,
Querem somente encontrar um meio de sobrevivência em cada dia que passa.
Mas se alguém lhes der carinho, nem que seja por uma vez...
Mas se alguém lhes der atenção e os olhar nos olhos com ternura...
As palavras começam a correr,
As cores começam a brilhar,
Os peixes começam a saltar.
A vida muda de rumo,
O mundo passa a girar,
As casas ficam alegres,
As pessoas retomam às conversas sem sentido.
Mas os cães continuam vadios,
Os gatos continuam vagabundos,
Os escritores continuam a escrever,
Os pintores continuam a pintar,
Os pescadores continuam a pescar...
Nada muda, tudo fica igual.
O olhar doentio e sedento de um cão vadio por uma festa,
O miar pertinente de um gato de rua para obter uma espinha,
A eloquência das palavras do escritor de livros famosos,
O vibrar da exuberante tela do pintor de quadros célebres,
A saga constante da faina do pescador de peixes ilustres,
Continua hoje e sempre no Mundo dos homens,
Daqueles seres banais que pretendem ser donos do mar.
O mar...
O único que é único, derradeiro, colossal.
O único que nada quer e tudo tem.
O único que não procura conquistas para lá dele próprio.
O único que realmente ama e faz viver...
O único que entende estas palavras soltas ao som da brisa,
Escutadas pelo Vento do Norte,
Cantadas pelo Vento do Sul,
Espalhadas pelos Ventos Uivantes...
15 Julho 2005
Helga Pereira
Nota - QUadro de Helga, na ESCOLA +, de Kira
Consulte - http://escolamaispintarefacil.blogspot.com/2009/04/delicadeza-de-um-trabalho-de-helga.html














