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Quotidianos

ElegiaPor Manuel Costa

Um novo poema do Manel...

2 min de leitura
Elegia Por Manuel Costa

Por Jornal Rostos

Elegia

Naquela velha casa
Da rua mais difícil de subir
Nasci, num dia triste de Novembro.
Por essa Europa a guerra semeava
O estrago, a fome, a crueldade.
Sem açúcar, bebia-se o café;
A manteiga era uma quarta, por favor.
E na braseira, sob a mesa de jantar,
Ardia cisco mais barato que o carvão.
A quatro quadras de distância
Descendo a velha estrada principal,
Vivia Mariana em comunhão
Com quem lhe fez os filhos e o mal.

Cresci entre as salinas e a Rua
De Baixo, como todos lhe chamavam;
Por ela, certas vezes cavalgavam
Os guardas do destino acinzentado;
À frente o capitão Olho de Vidro,
Altaneiro, arrogante, aprumado
Adverso de um povo agrilhoado
E inimigo daqueles que sabiam
Fintar as patas das bestas odiadas.

Crianças éramos, ignorantes,
Distantes do futuro, figurantes,
Num palco onde faltava a claridade;
Tempo d´A Toutinegra do Moinho,
Das Vinte Mil Léguas Submarinas,
D´A Rainha Madrasta, completa,
Que Mariana ouvia ler embevecida:
O drama, a aventura, a alegria,
Suavizavam seu viver mortificado.

Quando chegou a sua hora de partir,
Eu sei que fui com ela na viagem;
E ainda hoje,
Olhando comovido a sua imagem,
Recordo, oh! Se recordo
Os afagos, as palavras, os abraços
Naquela outra casa, nos espaços
Partilhados e vividos com amor.
Tantos anos passados,
Lembro-me ainda,
Como eras boa, como eras linda,
Última sinfonia em Sol Maior.

Manuel Costa
10-08-2009

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