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Quotidianos

Valsa tristePor Manuel Alpalhão
Barreiro

(Para ler, ouvindo a Valsa nº.2
De Chostakovitch)

2 min de leitura
Valsa triste Por Manuel Alpalhão Barreiro

Por Jornal Rostos

Valsa triste

(Para ler, ouvindo a Valsa nº.2
De Chostakovitch)

Azul-petróleo,
Celeste, bebé ou cor de mar
Cheiros e cores do meu país.
Assombrado, inquieto,
Alma demais dorida,
Descrente desta vida,
Desamparado, quieto,
Braços caídos, lassos,
Cegos os olhos e os passos
Num desamparo total.

Quem trata deste Portugal
Do fado, dos touros e da bola
Da crença numa Fátima qualquer?
Cinzento, lúgubre,
Mouro ao sul, ao norte visigodo,
De preto ou azul-escuro,
Sem cheiro da hortelã de Ary dos Santos;
Sete saias, sete prantos,
Chapéus do fingimento ou do engodo.

Faz falta conhecer terras distantes,
Medir e comparar de novo o azul
Dos céus, dos mares, da multidão;
Faz falta a cor da verde esperança,
Rigor, insistência, exactidão,
Os abraços fraternais dos solidários,
O excitante vermelho coração,
Que deixam florescer a confiança,
O sonho, a liberdade, os cheiros vários.

As cores diversas, os instantes,
Passados e presentes do Amor.
Triste sina, dizia a cantadeira,
Cantos de mal viver e desamor
Do mais sofrido e gasto gesto humano;
Toque o violino, rufem os tambores,
Entrem os actores na cena nua
Queimem alfazema e alecrim,
Deixem de dizer sempre que sim.

O tempo é pouco e a sorte é crua.
E esta suposta Europa tão comum,
Rouba-nos a festa, tira-nos a rua,
Implanta-nos o refrão do “dois em um”;
Olhar, parar, dizer que não,
Saltar barreiras, abrir a mão,
Dizer adeus com mão aberta.
E vejam lá se é bom ou não,
Ficar a Pátria mais liberta!

Manuel Alpalhão

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