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Quotidianos

Onde os Desejos Fremem Sedentos de SerÁlvaro Giesta

Epígrafe (ao livro Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser e mais três poemas)
Com apresentação e lançamento agendada para 12Nov2011, no Auditório da Biblioteca Municipal Manuel Giraldes da Silva, no Montijo.

4 min de leitura
Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser Álvaro Giesta

Por Jornal Rostos

Quando quase se apagam as luzes no dentro da idade,
acendem-se mãos voláteis
e rasgam-se rios de silêncio e sal sobre a idade do tempo.

Talvez um corpo se erga do nada e caminhe
abrindo brechas no vazio…
talvez uma ave esquecida a planar no horizonte azul
esvoace sobre a praia e a montanha
e cresça
em voos de esperança para além do sonho…
talvez uma flor desabroche das palavras prenhes
de silêncios e sombras,
e dê à luz formas ávidas de ser.

O autor
***********

Delírios Póstumos de Loucura

Abismo-me…
quase em queda no precipício do desterro
mergulho
nas falésias íngremes do teu corpo
em permanente floração.

Abres-te em silêncios…
sinto-te
no meu luar de cansaços e desejos
impossíveis
e putrefactos de delírios póstumos.

Este cansaço
que me aflige ao fim do dia e me persegue
ao acordar,
ecoa dentro de mim vibrante de loucura.

Nas flâmulas do desejo,
em delírios póstumos e vibrantes
embriago-me
na lucidez dum céu distante.

Alheio-me em versos de tormento
que renascem das cinzas sílicas e cósmicas
do tempo.
************

Sem Fulgurações de Luz nem Espaços Cósmicos

Sento-me num banco cansado
de pedra
à porta de cada entrada que não se abre
e canto-te.
Como ave no paraíso, canto-te.

Canto-te sem a existência de deus
nem do peregrino.
Canto-te apenas na presença e na ausência…

Sem invocações nem lamentos
sem as fulgurações de luz doutros tempos
ausentes na obscuridade do luar.

Canto-te
na alteração dos espaços cósmicos
que a vida desfolhou
na pele e no rosário de desejos
por cumprir.

Canto-te
mesmo sem palavras nem salivas de beijos
nem imundas máscaras
de loucura erótica.
*************

O Dia em que a Noite ficou mais Escura ainda…

…e eu
solitário com os ossos nus do crepúsculo
a esvair-se em rubro sangue.

As veias azul-negro da noite vertem
ira estampada
no rosto oco e sombrio do vazio.

Aqui, estático e só
onde os desejos fremem sedentos de ser
alguma coisa diferente do nada,
caio
no abismo da noite fria.

Penumbra por dentro de mim o sonho…
e lá fora ressoam os ecos, estampidos secos
das estrelas que cintilam sem a luz de outrora.

Grita-me por dentro a ira
no peito nu rasgado a meio onde nasce ímpia sede
de viver.
************

Viagem ao Interior dum Corpo

Alguém grita a meio da viagem:
- a vida venceu a morte!

Abandonam-se as facas
acendem-se as lâmpadas e a leveza da luz
embriaga
as miragens de flutuantes almas
desabitadas do corpo.

Incendeia-se o fundo brilhante do céu
em multidões de estrelas…

A luz nervosa do néon, aqui, perde-se
no reflexo plúmbeo dos espelhos
e na fímbria das planícies verdejantes.

Inundam o branco desta cidade longínqua
e perdida
gestos cansados.
A vaguear no espaço sem nome
em mágicas espirais o corpo flutua
na ausência da matéria.

Amanhã nascerá da morte outro ser…
em marcha para o infinito
intemporal
o seu olhar meditativo pousará nas frágeis
arestas do tempo.

Luminosa alba arrebatará da terra
as almas
para a travessia do caos em infinito dilúvio
em busca da ordem
após o nada e o princípio.

O olhar, no crepúsculo,
fascinado por celestiais viagens na mítica noite
desbravará as trevas
romperá a escuridão
por entre as fissuras do tempo perdido
sem abandonos nem desolações.

Entre túmulos vazios
evaporar-se-ão as almas em busca de fresca fonte…
No lume invisível da viagem sem regresso
divagarão na profundidade do tempo
que ressuscitará de novo.

Alvaro Giesta

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