No reino das nebulosasPor Alvaro Giesta
tarda o meu céu em amanhecer
Foge-me o tempo
no vento e nas palavras causticantes
que não digo

Por Jornal Rostos
Foste semente em mim oculta…
Agora pétala
desabrochada que dá fruto
à superfície do corpo
No teu gesto
a força do vento e da tempestade
O rigor do tempo
e o arbusto do olhar,
emanando mistérios sobre o rio
e o sonho
e a vida
Apenas nós,
aqui
no esquecimento e na ignorância
do tempo
no cansaço dos gestos
e na descrença das palavras
a folhear o vago instante
dos dias
insensíveis e crus,
na esperança lúcida vazia
que sugere a nossa vida,
transbordando sonhos
para além das margens longínquas
neste silêncio marítimo
nocturno
Caminhamos invisíveis,
misturamos as vestes
com o nu e o belo a retirar-lhe
a beleza que o nu tem
Rasgamos as máscaras em sorrisos
silenciosos
e pensativos que crescem na urgência
do amor
Regressamos ao que fomos
perdidos há tanto
no silêncio do ventre frio
e amordaçado
deste exílio imposto,
de nós tão próximos e de nós
tão afastados
Agora
foge-me o tempo…
Hoje a manhã, são os meus
dedos a escrever que abrem
um maio mês-das-rosas
e das virgens
Apesar de tanto sol hoje
tarda o meu céu em amanhecer
Foge-me o tempo
no vento e nas palavras causticantes
que não digo
Um dia foste água meu amor
e foste vento e verbo
na intempérie dos dias inúteis
em que sangravam as lágrimas
no seio da escuridão
Um dia, longínquo, amei-te
desvairadamente
com a mesma intensidade
do grito fluindo no ar à flor
do tempo primordial
Amei-te
com a cadência do lume e a chama
que cresce ardente
no peito sem nunca fazer cinza,
hoje, amo-te na vida aos poucos agonizada com a raiva dum sempre suicídio adiado por nunca te saber amar como merecias
Alvaro Giesta
(não escrevo segundo as regras do acordo ortográfico)














