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Quotidianos

Ergo-ME porque ME ladrais a vida como quereis ?Por Miguel Faia

Sou-ME o maligno poeta amaldiçoado
que te nega em orações
aqui
e em todo o lado

3 min de leitura
Ergo-ME porque ME ladrais a vida como quereis ? Por Miguel Faia

Por Jornal Rostos

Ergo-ME porque ME ladrais a vida como quereis ? ©

Ergo-ME ao nascer
porque ME ladrais a vida como quereis
ergo-ME contra vós pantomineiros
pederastas
imbecis
que embarcais em canto de sereias
mansos cordeiros
cordeirinhos mansos vossos servis

Ladrais-ME a vida como se ME fosse
útil vivê-la
como ME impondes

Sou-ME o génio Zaratustra
contemplador de astros que não chora
ao nascer, antes ri sonoramente
e não morre imolado pelo fogo
nem a loba o quer comer;

Sou-ME o maligno poeta amaldiçoado
que te nega em orações
aqui
e em todo o lado

Eis-ME bombo de todos vós
santos
padres
rufiões e governantes
e eis-ME da lama a crescer o meu ódio
contra vós
nela plantado
Eis-me o ópio das sementes
vil veneno

Posso ser fuga golpe adiado
perversão
e abandono, o que ME importa
é ser-ME útil o que ME diz
o EU de mim firme mesmo que de vós
desamparado

De ser chamado Fariseu
ME não livro
ou canalha, também sei!

Mas vós que tendes a mania
das invenções
e descobertas,
vós que bestializais a noite aos meus olhos,
inchai o bucho
em maré cheia de veneno
e rebentai
Narciso-ME no meu ódio
como Herodes
ao filho cristo pelo Pai muito amado

Grasna-ME a alma num lampejo
a negar-se a vós
protagonistas da moral

Normal seria
para vós EU ser cordeiro imolado
e filho da estupidez
mas bem vedes
que não sou o geral da mediocridade
nem um vivo-morto a vossos pés
sepultado
ou acomodado
à espera que chegue a eternidade

___________
① Explicação do recurso, pelo poeta, à imagem de Zaratustra, – como centro da filosofia de Friedrich Nietzsche: temos a noção de que os seres humanos são uma forma transacional entre macacos e os que Nietzsche chamou, literalmente, “além-do-homem”, normalmente traduzido como “super-homem”. É a imagem do Sol, da Luz que vem além do horizonte ao amanhecer como a simples noção de vitória.
No “Assim falou Zaratustra”, da autoria do filósofo Nietzsche, são as andanças dum filósofo colhidas dos ensinamentos do Zoroastrismo que narra o nascimento do profeta Zaratustra, nascido na Pérsia (actual Irão), no sexto dia da Primavera. Zaratustra que, ao nascer não chorou, mas riu sonoramente o que atormentou, desde logo, os “donos” das religiões que viram, no menino, um revolucionário do pensamento humano, que os iria enfraquecer. E, pelos “donos” das religiões, que argumentavam a fúria dos deuses, porque lhes viram um demónio dentro, o pai foi aconselhado a matá-lo. Maior foi a confusão dos sacerdotes quando viram que ele não ardeu na fogueira onde foi colocado, para esse fim, pelo pai. Nem a boiada de mil cabeças de gado o esmagou, nem a loba o devorou, cuidando dele.

© Miguel Faia do livro “Inquietante, é!” (em pré-edição) com fixação do texto explicativo por Fernando A. Almeida Reis, ortónimo, aos poemas e às epístolas dirigidas por Miguel Faia a Alvaro Giesta.
(não escrevo segundo as regras do novo acordo ortográfico)

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