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Quotidianos

BARREIRO - Ex- Padre Tiago Pinto Veloso de Santo Antonio da CharnecaEscrevi ao Papa Francisco a informar que deixava a vida sacerdotal

Há poucos dias, uma amiga enviou-me uma fotografia de um documento afixado na Igreja de Santo António da Charneca. Vi a foto. E senti tristeza e desilusão. E, acima de tudo, uma profunda sensação de injustiça. Aquele documento fala de mim. Fala da minha vida. Fala do meu percurso. Mas fá-lo de uma forma que pode levar muitas pessoas a acreditar numa realidade que não corresponde aos factos.

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BARREIRO - Ex- Padre Tiago Pinto Veloso de Santo Antonio da Charneca Escrevi ao Papa Francisco a informar que deixava a vida sacerdotal

Por Jornal Rostos

Por isso sinto que devo este esclarecimento a todos aqueles que me conhecem, que caminharam comigo ao longo dos anos e que merecem ouvir a minha voz e não apenas uma versão burocrática dos acontecimentos.

Eu não desapareci.
Eu não fugi.
Eu não me tornei inalcançável.
Estamos no século XXI, bolas! Se não sabem a minha morada, procurem-me nas redes sociais! Sei lá!
(a parte cómica disto, o superior segue-me no instagram... Mas pronto).

Há muito tempo comuniquei de forma clara aos meus superiores que não pretendia regressar à vida religiosa. Disse-o diretamente. Assumi a minha decisão. Pedi que fossem iniciados os procedimentos necessários para a minha saída.
Senti tudo menos apoio da parte dos responsáveis/superiores. Senti mesmo abandono.
Saí da vida religiosa e nem perguntaram se eu precisava de ajuda para viver fora do mundo da religião. (o voto de pobreza significa não receber um ordenado; portanto saí basicamente sem dinheiro. E foi fora da congregação religiosa que aprendi o que é a verdadeira pobreza - “estandarte” dos Passionistas. Também foi fora que aprendi o que significa trabalhar, estar dependente do suor diário, ter de trabalhar para ter comida e água em casa… foi fora que vi como a vida real é tão diferente da vida “perfeita” que a Igreja quer que seja vivida).

Bem, ao ver afixado publicamente um documento que afirma ter sido emitido por não conseguirem localizar-me é algo que me custa profundamente compreender. Ainda por cima, um documento onde parece que fugi. Enfim…
Durante anos servi aquela comunidade de Palhais/Santo António. Naquela paróquia celebrei momentos inesquecíveis. Acompanhei pessoas em momentos de dor, de esperança, de recomeço. Chorei com algumas delas. Sorri com tantas outras. Entreguei ali uma parte importante da minha vida.
Talvez seja precisamente por isso que esta situação me toca tanto.
Não por causa de um papel. Mas por causa do significado que ele carrega.

A minha decisão de deixar a vida sacerdotal e religiosa foi uma decisão séria, amadurecida e tomada em consciência. Não foi um impulso. Não foi uma rebeldia. Não foi uma fuga.
Foi simplesmente a escolha honesta de quem entendeu que o seu caminho já não passava por ali.

Ao longo desse processo deparei-me com uma Igreja que, infelizmente, nem sempre reconheci. Uma Igreja demasiado preocupada com procedimentos, autorizações e formalidades, quando eu procurava diálogo, compreensão e humanidade.

Cheguei inclusivamente a escrever ao Papa Francisco a informar que deixava a vida sacerdotal. Em resposta, foi-me transmitido que deveria reformular o pedido para solicitar explicitamente a graça de ser dispensado das obrigações sacerdotais.
Respeito quem pensa de forma diferente, mas confesso que me foi difícil compreender a lógica de pedir autorização para abandonar um caminho que eu já tinha decidido livremente deixar.

Talvez tenha sido precisamente aí que percebi, de forma definitiva, porque já não conseguia permanecer dentro daquele sistema clerical.
Apesar de tudo, não guardo ódio nem ressentimento.

Guardo gratidão pelas pessoas extraordinárias que encontrei ao longo destes anos.
Guardo gratidão por cada vida que tive o privilégio de acompanhar.
Guardo gratidão por cada abraço, cada conversa, cada história partilhada.

Mas também guardo a convicção de que a verdade merece ser dita quando o silêncio permite que outros construam uma imagem injusta de quem somos.

A todos os que me conhecem, obrigado pela amizade, pelo carinho e pela confiança.
A minha consciência está tranquila.
E isso vale mais do que qualquer documento afixado numa parede.

Tiago Veloso

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