Carta ao DirectorHomenagem a Augusto Gomes dos Santos

Por Jornal Rostos
Exmos Senhores,
Ao ter conhecimento, através do vosso jornal, da homenagem referida em epígrafe, devo referir que o curriculum apresentado está incompleto e impreciso.
Na realidade Augusto Gomes dos Santos não dirigiu grupos de folclore em Arcozelo mas, isso sim, foi ensaiador em 1961/65 do Grupo "As Camponesas do Corvo", em 1968/9 do Grupo Folclórico de Perosinho e, já como Presidente da Federação, foi consultor técnico do grupo "A Rusga de Arcozelo".
Seria injusto omitir a grande faceta humana com que se distinguiu com grande altruísmo ao serviço do Bombeiros Voluntários da Aguda onde, durante 12 anos foi Presidente da Direcção e condecorado pela Liga Portuguesa de Bombeiros e pelo Instituto de Socorros a Náufragos tais as acções que desenvolveu, com prejuízo da sua vida profissional e familiar, mas em benefício da população de Arcozelo e dos pescadores da Praia da Aguda por quem lutou pelo seu portinho de abrigo, hoje uma realidade.
Esta é a faceta mais humana que o distinguiu dos políticos que no "ancien régime" o perseguiram com ameaças e escutas telefónicas por lutar pelos seus ideais a favor das gentes que servia contra a vontade do poder instituído.
De referir, ainda, que, muito antes, nos anos 50, frequentou a escola de teatro António Pedro, de quem foi aluno e criou grupos de teatro amador como director técnico com êxitos nos célebres serões para trabaladores da Emissora Nacional e nos concursos organizados pelo SNI. Teve a sua consagração no grupo de teatro do "Eden Clube de Arcozelo", de que nunca quiz ser director, e reconhecidamente, fez um trabalho notável na formação teatral de adultos e jovens, com muitas actuações no País sempre gratuitas e para instituições de "Bem-Fazer", assim eram chamadas nesses tempos.
Curiosamente, é omitido, muitas vezes, o mérito destas suas acções, segundo minha opinião, muito mais nobres, de sucesso, de grande empenho e entrega total pelos valores culturais e humanos de todos os que com ele conviveram e tiveram a sorte de colaborar com ele. Recusou, sempre, dinheiro por esses desempenhos e, de conhecimento próprio, sei que pagou, sem poder, muitas dívidas dos Bombeiros Voluntários da Aguda e delas não foi ressarcido. Por tudo isso se tornou muito incómodo para a classe que detinha o poder de um regime autoritário e fechado e que o tentou limitar nas acções, daí o mérito de romper com eles.
Como escritor, além da colaboração referida para os jornais, escreveu peças de teatro e o livro "A Santinha de Arcozelo" com tiragens de milhões de exemplares para Portugal e muitos países de diversos continentes.
Embora não tenha sido convidado para a homenagem, o sacrifício da família deixou marcas, como admirador da sua acção, pelos tempos em que me foi dada a possibilidade de conviver com o homenageado, de dialogar e enriquecer com a sua obra, apesar de, por vezes, discordarmos, o que ainda enriquecia mais o debate , quero fazer a maior justiça ao meu PAI que foi um grande homem, não só no Folclore, mas, principalmente, no dinamismo do seu voluntariado directo para com a população de Arcozelo que ele tanto preza e defende. O que nos divide não impede o meu reconhecimento justo e sentido por toda a sua obra como pessoa de BEM.
Jorge Almeida Santos
Nota: Se entenderem divulgar o texto, pelo jornal ou pessoalmente aos organizadores, agradeço que o façam de uma forma integral. Para mim, seria muito interessante que fosse conhecido o lado humano do homenagiado e não as acções folclóricas com mais ou menos danças e festas , mais comida ou menos pasteis de bacalhau que diluem a verdade e o valor de quem o tem e não é evidenciado. Muito Obrigado














