Barreiro - Novo livro do poeta Alvaro GiestaPrefácio de Maria Jorgete Teixeira
Porque não há vida sem sentidos, porque dos sentidos nasce a vida, porque o corpo, fazendo par com a alma, a ela estará indelevelmente associado.

Por Jornal Rostos
O Ventre das Palavras
Prefácio
Eros, de deus amado na antiguidade clássica, passa a ser banido e amaldiçoado nos séculos seguintes imbuídos do obscurantismo e preconceito da nossa civilização judaico cristã. Embora a poesia erótica tenha sido tratada, na nossa literatura, desde tempos remotos, só há pouco tempo parece ir encontrando o lugar que lhe é devido nas letras portuguesas.
Foi com surpresa, mas também com grande prazer, que acedi ao pedido do poeta e amigo Alvaro Giesta, pseudónimo de Fernando Reis, cuja obra tenho vindo a descobrir ao longo destes dois anos em que nos demos a conhecer. E digo, prazer, passe o pleonasmo, dado o tema em questão, não só pela excelência da sua poesia, mas também pelo gosto especial que eu tenho pela vertente sensual e erótica da escrita em geral e da poesia em particular. Porque não há vida sem sentidos, porque dos sentidos nasce a vida, porque o corpo, fazendo par com a alma, a ela estará indelevelmente associado.
Assim, entrei no livro O Ventre das Palavras, como quem vai desnudando a pele e fui descobrindo, extasiada, o sentir do poeta e os meandros da forma como esse sentir se consubstancia.
É o próprio autor que divide a sua obra em duas partes, a primeira, intitulada “Quando os sentidos nos dominam”, é marcadamente sensual. Aí, a líbido corre livre e solta como um rio em avalanches e nomes como mãos, dedos, flancos, ventre, nádegas e sexo, fazem parte de um léxico marcadamente erotizado.
A mulher é o centro do universo, entendida como receptáculo e fonte do prazer dos anelos do “eu” poético que se assume, diria eu na maior parte das vezes, orientador desse prazer ”entre a concha da minha mão/ se acomodem/ os teus seios rijos e rosados” ou “ aí em baixo onde o nada/ é o topo da loucura,/ penetre a espada /sem bainha /subindo em ti a cavalgar/ até se fazer dia pela madrugada”.
Porém, ao desígnio masculino, responde a mulher, submissa, por vezes, mas não passiva, que se faz sujeito activo no envolvimento dos corpos: “deslizas sobre mim/ serpenteando o corpo nu,/ insinuas-te no beijo-semente/ sob os amarrotados lençóis” “ se tardo sem cobrir/ com meu corpo nu,/ o teu despido, logo tu, sobre o meu,/ sem descuido e atrevida/ me aqueces”.
Sem querer entrar em polémicas sobre a diferença entre a escrita no feminino vs masculino, diria que a poesia erótica de Alvaro Giesta é nitidamente fálica. De um erotismo forte, viril, sem perder contudo a doçura e sensibilidade e nunca roçando a obscenidade, numa linguagem muito visual, descreve o amor nas suas variadas vertentes, sem tabus nem preconceitos.
Sendo o livro composto por duas partes, como já foi dito, o último poema da primeira parte, serve de charneira entre o amor/paixão e o amor/coração, não no sentido do abandono total da sensualidade, mas da passagem da loucura para um espaço onde, diz o poeta, ”o silêncio é agora a nossa forma de sentir e afirmar”.
De um lirismo límpido, sem estéreis e rebuscados recursos de estilo, mas com imagens de extrema beleza, se passa do amor “desembestado” e urgente da primeira parte, para um amor sereno, onde os corpos se procuram em “ gestos trémulos de ternura”.
Naturalmente de pendor mais melancólico e disfórico em relação à exaltação da primeira parte, o léxico acompanha esta tendência, onde palavras como o silêncio, a ausência, a saudade, o medo, o desespero, a lágrima, a máscara, a noite e a solidão marcam presença.
À expressão dos sentimentos ligados ao amor, à aflição de não ser amado, ao medo da rejeição, e à perda, surge ainda a inevitável angústia e nostalgia pela passagem do tempo:
“ Envelheceu-me a memória
vagarosamente…
Vejo, que apesar de tanto sol hoje
tarda o meu céu em amanhecer”
Foge-me o tempo
no vento e nas palavras causticantes
que não digo”
Mas é também aqui, a mulher, o epicentro de todas as coisas, ventre fértil “ fermento que leveda a sêmea/ e se faz pão”.
Fecundo é também o amor que se faz raiz de palavras e poesia: “Um dia hei-de escrever-te…” ou “Como as marcas das tuas mãos/ deixadas no meu corpo nu, / assim te deixo um poema no grito da noite”
Finalmente, ao Alvaro Giesta, o meu agradecimento por me ter permitido entrar no mundo das suas palavras de um modo mais aprofundado o que veio reforçar a admiração que eu já tinha pela sua poesia, numa vertente que me é muito querida, a do universo tão rico das emoções e dos sentidos.
E termino com os seus versos no último poema, numa bela ode ao amor:
“Não deixes nunca morrer o amor,
mesmo
que nas clareiras do teu percurso
as madressilvas não criem amoras
e apenas se deleitam em mares de espinhos,
(…)
Não deixes morrer o amor,
não deixes que matem
no teu peito
o amor”
Maria Jorgete Teixeira, professora do ensino liceal (Línguas e Literauras Modernas)
Nota - O Ventre das Palavras será lançado no próximo mês de Maio, em Lisboa.














