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Quotidianos

Um olhar sobre as «Emoções» de Amélia MilitãoA única certeza é o agora
Por António Sousa Pereira
Barreiro

Os poemas de Amélia Militão são retratos de instantes. São lágrimas. São um grito de esperança. São a expressão do seu amor à vida e aos dias.

4 min de leitura
Um olhar sobre as «Emoções» de Amélia Militão A única certeza é o agora Por António Sousa Pereira Barreiro

Por Jornal Rostos

Ontem à tarde, na Biblioteca Municipal do Barreiro, a convite de Amélia Militão, apresentei o seu último livro - «Emoções». Aqui fica o texto que redigi após a leitura dos seus poemas.

Um olhar sobre as «Emoções» de Amélia Militão

A poesia é um olhar por dentro dos sentimentos que fazem os dias. Acordamos olhamos o sol e sentimos que um novo dia começa, sentamo-nos, pegamos numa caneta e escrevemos as “emoções” que trespassam a nossa interioridade.

Foi este sentimento que marcou o meu pensamento quando percorri as páginas do livro de Amélia Militão.
Cada poema é um retalho de um dia, de uma paisagem, de uma vivência, de um lugar, de um momento de muitos momentos que fazem uma vida que se cruza com outras vidas.

São poemas que abrem portas aos dias, que colocam interrogações e desafios.

Nada é real
É tudo fictício, tudo errado

Viver assim
Não é para mim!

São palavras que nascem por dentro dos nervos. Palavras que tocam as três dimensões do ser humano:

– o sentir racional ( pensar o mundo),

E no meu peito
A dor aperta e eu sorrio
Com o coração a sangrar!

Céu, mar, quase um só
E eu debaixo do meu chapéu-de-sol
Sonho com um mundo melhor

o sentir emocional ( sentir o mundo)

Folhas mortas, castanhas
Que já foram verdes
As árvores abanam
E ficam nuas
Pelo vento beijadas!

o sentir espiritual ( amar o cosmos)

Já não há fuga possível
O mundo já não é o que era
E a tua presença
Que nem sombra
Em permanência
Força-me a pensar
No que não quero

Os poemas de Amélia Militão são retratos de instantes. São lágrimas. São um grito de esperança. São a expressão do seu amor à vida e aos dias.

Céu, mar, quase um só
E eu debaixo do meu chapéu-de-sol
Sonho com um mundo melhor

Os seus poemas não são um rebuscar de palavras, com intencionalidade de rima ou métrica, são acima de tudo um mergulhar por dentro das palavras, com musicalidade e paixão.

Estou no meu quarto
Ouço Chopin
A luz do sol
Chegou com a manhã

Amélia coloca-nos um desafio, o seu próprio desafio perante os dias. Sentirmos o direito de acreditar, de lutar e não baixar os braços perante as dificuldades.

Preciso de sonhar
E o mundo diferente imaginar
Correr pelo campo fora
Sem parar!

Porque afinal, o passado não podemos transformar, o futuro não sabemos que vai ser, a única certeza é o agora, como nos diz Amélia nos seus poemas doces:

Passo o tempo a procurar
Outros mundos, outras vidas
E canso-me, canso-me de esperar
Quero viver tudo, agora

Afirmando e reafirmando em cada som, em cada palavra:

O tempo passa
E eu tento viver cada dia
Como se fosse o último!

E com este seu livro de “Emoções” à flor da pele e dos nervos deixa-nos essa mensagem que registo:

Nas asas do vento
Vão os sonhos, a verdade
De ser o que somos

Uma nota final, também me reencontrei nos seus poemas, quando escreveu nas margens do Guadiana que desagua na terra onde nasci, e também vivi, muitas vezes este sentimento que ela expressa:

Do outro lado da ponte
Há outro país
E entre os dois há o rio

É afinal, nisto que a poesia faz sentido quando ao lermos, sentimos nas palavras escritas um pouco do que nós somos e vivemos.

Obrigado

António Sousa Pereira

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