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Quotidianos

SESSÃO DE APRESENTAÇÃO NO ISELApresentação do livro “Buenos Aires Tempos de Paixão”
. FASCISMO NUNCA MAIS!

. Sessão de apresentação do livro “Buenos Aires Tempos de Paixão”, no ISEL, 6ª feira, 29/4/2022, 15.00h

Manhã de 2 de Dezembro de 1970, triste, fria. O grande espaço deslumbrava e intimidava em simultâneo, tão distinto da velha escola, saudosa, de memórias boas e ruins.
- Colegas, temos reunião geral às duas horas, para discutir os nossos problemas!

3 min de leitura
SESSÃO DE APRESENTAÇÃO NO ISEL Apresentação do livro “Buenos Aires Tempos de Paixão” . FASCISMO NUNCA MAIS!

Por Jornal Rostos

Primo e Mendes afixam um cartaz em papel de cenário, com o anúncio do plenário de estudantes no primeiro dia de aulas no novo edifício. Não estava muita gente no átrio sumptuoso da nova edificação. Amplo, funcional, com mesas de vidro e cadeirões arrumados simetricamente, um baixo relevo impressivo na parede do fundo, um ambiente moderno mas algo desumanizado. Não são as paredes que fazem a escola!

A amplitude da arquitectura hodierna contrasta com a memória do pátio exíguo do velho casarão. João sente um remorso nostálgico, afinal fizera o curso durante quatro anos na Buenos Aires.
- Que se passa? Cheguei hoje das férias prolongadas – questiona um colaborador retardatário.
- Não nos querem entregar as instalações associativas, a cantina está fechada, o bar privado é caríssimo, estão milhares de sebentas fechadas na Estrela, os transportes são raros e sem descontos…
- Não digas mais nada para o rol! Olha, vem ali o director...
- Quem afixou esta porcaria? Tirem já isto das paredes novas! Energúmenos! – o velho fascista, protagonista de outras perseguições, repressões e castigos, acompanhado de um séquito de capangas, arranca os cartazes que anunciam a RGA.

Apanhando do chão os pedaços rasgados do papel de cenário, Susana e Matias, tremem de raiva e de impotência perante aquela arremetida autocrática e violenta, a garganta emudece-lhes com o constrangimento. Foi o Ramos, um aluno-militar mais velho que reagiu.
- O senhor director, um homem já idoso, não tem vergonha de estar a rasgar cartazes dos seus alunos?
- Como, o quê? Quem é o senhor, identifique-se imediatamente?! Dou-lhe já ordem de prisão!
- A mim? O senhor é que devia ser preso, a fazer uma coisa destas!
- Chamem a polícia para prender este fulano mal educado. Agarrem-no!
Estabelece-se uma confusão momentânea, os contínuos “paus-mandados” hesitam, algumas dezenas de estudantes rodeiam a cena. Ouvem-se assobios, imprecações. No meio da barafunda gerada o colega mais velho, que está a cumprir o serviço militar, escapa-se corredores afora evitando a situação melindrosa de consequências imprevisíveis.
Dois dias depois, a 4 de Dezembro, saíu um despacho da direcção do Instituto Industrial de Lisboa, a suspender preventivamente “por terem provocado graves desacatos”, os alunos Primo, Mendes, Matias e Susana. Os restantes dirigentes da ADAIIL continuaram a luta pelos objectivos justos, necessários e sentidos, até serem todos suspensos e castigados (treze!). Mas a luta estudantil prosseguiu em condições duríssimas de cassação das liberdades e perseguições no perímetro escolar, proibições, castigos, vigilância pidesca, incorporações militares, e apoio da direcção a gente reaccionária (“Comissão de Sebentas”, que montou um “negócio”, apesar dos milhares de sebentas encerradas na Buenos Aires). Triste e revoltante o encerramento compulsivo da ADAIIL, por despacho do ministro Veiga Simão de 23/9/1971, porém a acção e a resistência iriam continuar até à Revolução de Abril que os estudantes do IIL ajudaram a construir.

[in livro “Cabo Ruivo Amor em Tempo de Revolta”, 2ª parte, em construção]

Armando Teixeira

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