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Quotidianos

Por António Sousa Pereira«Entre a Voz e o Gesto -  Poemas de trabalho e luta» de Mário Durval
. Da crisálida do presente à borboleta do futuro

Mário Durval faz nascer os poemas, colocando nas palavras os acontecimentos que vive, forja palavras grávidas de afectos e ideologia. O mundo e o seu quotidiano. O mundo e o seu tempo.

6 min de leitura
Por António Sousa Pereira «Entre a Voz e o Gesto - Poemas de trabalho e luta» de Mário Durval . Da crisálida do presente à borboleta do futuro

Por Jornal Rostos

Hoje, 5 de outubro, no último dia da 53.ª  edição da Feira do Livro de Alhos Vedros, decorreu a apresentação do livro «Entre a Voz e o Gesto -  Poemas de trabalho e luta – Volume I», de Mário Durval. 


Apresentação do Livro «Entre a Voz e o Gesto -  Poemas de trabalho e luta – Volume I», de Mário Durval

Por António Sousa Pereira


Boa noite,

A todas as pessoas aqui presentes.


Antes de mais, começo por dirigir uma calorosa saudação à Academia Musical e Recreativa 8 de Janeiro de Alhos Vedros, pela sua resiliência, pelo amor à cultura e por manter viva a Feira do Livro de Alhos Vedros, na sua 53.ª edição, vinda dos tempos de antes do 25 de Abril, no século XX, pela dedicação do meu, eternamente, amigo Leonel Coelho e as equipas que sempre o apoiaram, assim como a sua filha Dores Nascimento, que agarrou o testemunho com o seu coração e, cá estamos, neste século XXI, num tempo do digital, mantendo vivo este projecto de caracteríscas únicas no país, que está inscrito na nossa história cultural e no amor à Liberdade. Obrigado!


Agradeço, igualmente ao meu amigo Mário Durval, pelo amável convite que me dirigiu, e me honra, para partilhar esta noite, aqui, aqui, na feira que dá vida à palavra, na sessão de apresentação do seu livro, neste dia que é profundamente sentido, entre o gesto e a voz, porque nele escutamos os ecos da Revolução da República, e, neste encontro com a memória, com a poesia, celebramos a liberdade, por dentro da ternura dos poemas do Mário.


Após a leitura da obra de Mário Durval, sentei-me para tomar umas notas e estruturar pensamentos. Comecei por colocar, a mim mesmo, a pergunta: O que é a poesia?

Na verdade, existem muitas ideias sobre o que é a poesia e há dificuldade em encontrar uma definição.


A poesia está em todo o lado. A poesia é a vida. Todos somos poetas, ou, de poeta e louco todos temos um pouco. Mas, talvez, o fundamental é considerar, acima de tudo, que poesia é Arte. A arte de burilar as palavras, dar-lhes densidade e afecto. Emoção e Razão.


A poesia é arte que começa por ser a expressão de uma experiência estética – o sentir – que nasce no olhar, no escutar, no olfacto, no tacto, nos sabores, nas emoções, nos afectos. A poesia é o sentir os afectos e o belo!

A poesia é a arte que, através do pensar, transforma a experiência estética, num movimento por dentro da nossa interioridade, que, num abraço entre o sentir e o pensar, faz nascer uma experiência ética, que através do poema espelha ideias, valores, movimentos da história, acontecimentos, o poeta e as circunstâncias. Do sentir ao pensar, o afecto faz-se palavra e a palavra faz-se arte poética.


Na verdade, através deste movimento do sentir que abraça o pensar, o poema interpreta a vida, é força, é uma energia que está viva no quotidiano. O poeta, na sua ação criativa, interpreta o mundo, analisa o tempo que vive, faz do poema, voz e gesto. Esta a experiência hermenêutica, que flui pelo olhar, atinge o coração e abre correntes na mente. Racional. Espiritual. Mística. Cívica. Profana. Sagrada.


Sim, no decorrer da leitura da obra, «entre a voz e o gesto», por diversas vezes, coloquei essa pergunta: O que é a poesia?

Caminhei, pelas páginas, como quem conversa com Mário Durval. Procurei sentir. Procurei pensar. Procurei interpretar.


Registei que existe um fio condutor no conjunto dos poemas escritos na sua obra. Nas suas palavras interpretou a força da vida, entre lutas e afectos, entre sons e cores, em cada presente semeou futuro.

Os seus poemas nascem dentro dos dias, nas suas vivências sociais e culturais, palavras forjadas na pureza do seu sentir – os mineiros, ou a vida profissional, a política ou as causas sociais. Da luta aos afectos. Um olhar sobre o mundo que nasce dentro dos seus nervos, para se encontrar com o outro, os outros, porque nunca vai só, nunca quer ir só, semeando palavras que fazem nascer poemas.

São poemas vividos e pensados nos acontecimentos. A sua poesia é um permanente presentismo, com raízes nas memórias que dão sentido a utopias, que criam futuro.


Mário Durval dá voz aos silêncios, das profundezas das minas e da ausência de sol.

Mário Durval apreende os afectos no pulsar do seu coração, nas lutas, na cidadania, nas pessoas, no povo. Sempre o seu povo. A Voz do Povo. No trabalho ou na ação política. Não é neutro. Está de pé, negando o mundo que oprime, criando cidades de afectos.

Mário Durval acredita num homem novo, sonha um homem novo. A utopia inscrita na história da humanidade, que está sempre em movimento. Nunca silencia, porque como dizia, Galileo, afinal – ela gira!

Mário Durval faz nascer os poemas, colocando nas palavras os acontecimentos que vive, forja palavras grávidas de afectos e ideologia. O mundo e o seu quotidiano. O mundo e o seu tempo.


A sua poesia é um leitmotiv para dar sentido à sua vida e aos movimentos da história. O poema sente, pensa e interpreta. O seu poema faz-se ação. Os seus poemas, no sentido filosófico, são estética, ética e hermenêutica.

São poemas que interpretam as circunstâncias, poemas que expressam opiniões sobre a vida, que analisam os instantes. Fotografam a vida. Sedimentam memórias.


A sua poesia é um fluxo por dentro do olhar, que nasce no aqui e agora e está no quotidiano, onde se constrói história da humanidade.

Cada poema é voz e é gesto. O sol roubado no fundo da mina. O Natal que pode ser Abril. Um gesto «contra o que nos faz mirrar». Palavras que são desafios e mensagens. Testemunhos.


A  poesia de Mário Durval é a crisálida - que tem dentro de si a amizade, o afecto, a procura de caminhos, o protesto, pensamento em movimento – essa crisálida que se faz borboleta, que voa e faz florir a cidadania, quer derrotar o sofrimento, unindo vontades, formando redes, em trabalho de equipa, sempre de mãos dadas com outros, vivendo o presente, amando a Liberdade, com saudade do futuro.

Mário Durval nos seus poemas vem dizer, publicamente, como águia que voa, bem alto, olha a paisagem e, com a voz e com o gesto, afirma:  “nunca vou deixar de lutar!”.

 Mário Durval, na sua poesia - sente, pensa e interpreta o mundo como uma história de luta, de afectos, de  Amor!


António Sousa Pereira

Alhos Vedros – 5 de outubro de 2026

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