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Quotidianos

UM LIVRO, DE QUANDO EM VEZEstação da Liberdade
Por Paulo Calhau

José Eduardo Agualusa é um homem livre, corajoso, frontal.
Tem denunciado e combatido a limitação dos direitos humanos, a corrupção do aparelho de estado, a falsidade da máquina oficial de propaganda angolana.
É verdade que não previu esta vitória tão esmagadora do MPLA. Nem a desejou. Enganou-se no resultado. Mas não no diagnóstico.
José Eduardo Agualusa é um excelente escritor. Já mo tinham dito. Pude agora confirmá-lo.

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UM LIVRO, DE QUANDO EM VEZ Estação da Liberdade Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

ESTAÇÃO DAS CHUVAS. Vai já na sua 7ª edição, mas apenas agora – passados que estão doze anos da sua publicação inicial no nosso país – li este excelente romance, editado pelas Publicações Dom Quixote.
José Eduardo Agualusa, 47 anos, natural do Huambo, vive entre Luanda e Lisboa.
Tem uma vasta obra literária – premiada e traduzida em várias línguas europeias – com a qual tive finalmente o primeiro contacto.

ESTAÇÃO DAS CHUVAS é uma “biografia romanceada de Lídia do Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana, misteriosamente desaparecida em Luanda em 1992, após o recomeço da guerra civil, [que] transporta-nos desde o início do século [nota: século XX] até aos nossos dias através de um cenário violento e inquietante. Um jornalista (o narrador) tenta descobrir o que aconteceu a Lídia, reconstruindo o seu passado e recuperando a história proibida do movimento nacionalista angolano; pouco a pouco, enquanto a loucura se apropria do mundo, compreende que o destino de Lídia já não se distingue do seu.” [reprodução de texto da contracapa].

ESTAÇÃO DAS CHUVAS é um texto doce e terno, mas também violento e brutal; radioso e optimista, mas também implacável e pessimista. Um retrato riquíssimo das relações humanas – as sérias e fraternas, as espúrias e traiçoeiras, as intolerantes e odiosas.

A leitura deste magnífico livro de José Eduardo Agualusa não podia ter sido mais oportuna. Surgiu precisamente no momento em que Angola – essa imensa e rica nação africana, multiétnica e pluriracial – foi confrontada com um processo eleitoral pseudo-democrático e ilusoriamente livre.
O governo do MPLA, de José Eduardo dos Santos e seus acólitos, mais não é do que uma repetição de outras realidades, passadas e presentes, do mundo dito socialista. Feita de restrição das liberdades, corrupção e cleptocracia.
Ao longo dos anos, mas sobretudo após a independência, foram vários os nacionalistas angolanos que denunciaram a deriva totalitária do MPLA. Num espaço e num tempo muito difíceis – bem sei. Marcado primeiro pela luta anticolonial e depois por uma dolorosa guerra civil, determinada pela disputa entre os dois imperialismos então existentes.
De todos esses nacionalistas emergiu a figura de Mário Pinto de Andrade, em memória de quem José Eduardo Agualusa dedicou este livro. Alguns deles foram perseguidos, torturados, assassinados.
O regime angolano não tem as mãos limpas. A lembrança e a denúncia dos seus crimes – políticos e económicos – são um imperativo dos homens livres.
José Eduardo Agualusa é um homem livre, corajoso, frontal. Que se tem insurgido contra a limitação dos direitos humanos, a corrupção do aparelho de estado, a falsidade da máquina oficial de propaganda angolana.
É verdade que não previu esta vitória tão esmagadora do MPLA. Nem a desejou. Enganou-se no resultado. Mas não errou o diagnóstico.
José Eduardo Agualusa é um excelente escritor. Já mo tinham dito. Pude agora confirmá-lo.

Apostilas:

1. Na última edição do “Expresso da meia-noite” (SIC Notícias, sextas-feiras, 23 horas) as eleições angolanas foram o tema em debate.
José Eduardo Agualusa esteve presente – foi lúcido, esclarecedor, honesto.
Luís Paixão Martins, administrador da LPM Comunicação SA, empresa que prestou serviços de consultadoria de imagem ao MPLA, foi hipócrita e hilariante – afinal um filme dejá vu, protagonizado pelos que, a coberto de interesses económicos e financeiros e sustentados na falácia do “politicamente correcto”, calam a mentira e são coniventes com o regime anti-democrático de Angola. Uma vergonha!

2. Vários órgãos da comunicação social portuguesa (escrita, televisiva e radiofónica) viram indeferida a sua pretensão de acompanhar o processo eleitoral angolano. Os pedidos de visto e credenciação foram atempadamente formulados e grotescamente recusados. À RTP, pelo contrário, foi permitida a presença naquele país.
Na manhã de domingo ouvi declarações de Ana Gomes a uma rádio portuguesa, criticando questões processuais (leia-se desvios) fundamentais do acto eleitoral. Mais tarde, à noite, as suas impressões, difundidas pela RTP, pareceram-me truncadas. Como cantou o José Mário Branco “houve aqui alguém que se enganou”. Ou, mais grave, que nos enganou.
Não se pode privatizá-la? Por mim era já!

Barreiro, 10 de Setembro de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)

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