NO BARREIRO LANÇAMENTO DO LIVRO“Um Discurso Escondido – Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a Primeira República 1910-1919”
Editada pela Câmara Municipal do Barreiro e Editora Bizâncio, esta publicação interpreta o papel da Companhia União Fabril e dos seus trabalhadores no Concelho do Barreiro.
"O Barreiro é de facto uma terra diferente, com uma história densa, repleta de acontecimentos ainda por explorar." - sublinhou Vanessa de Almeida, na apresentação da obra.

Por Jornal Rostos
“É indispensável que a História não seja apagada nos seus aspectos importantes”, referiu o Presidente da CMB, na apresentação do livro, recordando que o Barreiro tem uma História de luta e resistência pela Democracia e Liberdade. “O Barreiro deu um contributo importante para que se viva em Democracia”, referiu Carlos Humberto de Carvalho. O Autarca salientou a importância de acentuar a intervenção do Município na divulgação deste património histórico.
Por seu lado, Teresa Moutinho, da Editora Bizâncio, agradeceu à CMB esta oportunidade de contribuir para a divulgação da História do Barreiro. “Este trabalho enriquece o nosso catálogo e temos muito gosto em continuar a cooperar”, referiu.
Reforço da identidade do povo barreirense
Joana Dias Pereira, Mestre em História Contemporânea, salientou a relevância do livro para o reforço da identidade do povo barreirense. “Vem dar um contributo para que se faça luz sobre uma época da História de Portugal”. Joana Dias Pereira fez um enquadramento histórico da época em Portugal e na Europa.
Por seu lado, a autora, Vanessa de Almeida, falou sobre as fontes utilizadas na elaboração do livro e salientou que “o Barreiro é uma terra diferente”, com uma História densa, repleta de acontecimentos ainda por explorar.
Intervenção de Vanessa de Almeida na a+resentação da obra
Agradecimentos…
Antes de vos falar um pouco do que nos reúne hoje aqui, ou seja, do livro que resultou da investigação sobre as greves ocorridas na CUF durante a I República, gostaria de falar do que muitos de vós, hoje aqui presentes, quando me contam as vossas memórias, definem como «o ambiente característico do Barreiro», e do modo como esse mesmo ambiente, muitas das vezes, influiu decisivamente no vosso percurso individual, nas opções assumidas em determinado momento histórico, e que faz com que muitos afirmem com orgulho, «eu sou do Barreiro», mesmo quando o vosso BI diz outra coisa qualquer.
Começo por vos falar da importância desse ambiente porque, também a mim, que sou já de outro tempo - apesar da sorte que tenho por nos encontrarmos neste tempo e espaço – também a mim, repito, esse ambiente me influenciou. Sensibilizando-me para áreas de estudo como seja a história do movimento operário, a história da resistência. E é impossível estar, viver, trabalhar no Barreiro, e não reconhecer a importância que esta cidade, antes vila, teve para a história de Portugal do século XX, contribuindo pela sua dinâmica, nas mais diversas áreas, do associativismo à resistência, do desporto às mais diversas expressões culturais.
Barreiro é de facto uma terra diferente
O Barreiro é de facto uma terra diferente, com uma história densa, repleta de acontecimentos ainda por explorar. Foi assim com a descoberta destas greves, ou antes, com o acesso às fontes que permitiram a análise detalhada de como estas se desenrolaram, as suas causas e objectivos, bem como as estratégias adoptadas pelos protagonistas das mesmas.
Como terão oportunidade de comprovar, este livro assenta muito nas fontes, no que estas nos transmitem. Assim, foi contínuo e constante o recurso à imprensa da época, nacional e operária, analisada em confronto com as actas dos Conselhos de Administração e Fiscal da Companhia. E se a imprensa da época permitiu a construção de uma cronologia dos acontecimentos ocorridos, as actas possibilitaram aquilo que aparece definido como o «registo escondido» no discurso de Alfredo da Silva. É o tal discurso escondido do título. Ou seja, o que Alfredo da Silva não verbalizou nunca perante os operários da CUF, as estratégias a adoptar perante esse operariado progressivamente consciente e aguerrido, que tentará resistir às investidas patronais e às difíceis condições de trabalho através da sua associação de classe. De facto, nas reuniões dos conselhos de administração, o discurso de Alfredo da Silva é cristalino e claramente anunciado: debelar qualquer tentativa de organização operária que colocasse em causa o princípio da autoridade patronal. Em simultâneo, procura extinguir na génese qualquer tentativa de greve. Assim, e em determinados momentos, antecipa-se às reivindicações operárias e pratica aumentos salariais, que manipula consoante os seus próprios interesses, como meio de coacção e de divisão no seio do movimento operário.
AS recorre aos mecanismos repressivos que a partir de 1911, o poder político coloca à sua disposição
Confrontado com a declaração de greve, AS recorre aos mecanismos repressivos que a partir de 1911, o poder político coloca à sua disposição. Interessa por exemplo ressalvar que, imediatamente após a criação da GNR em Março de 1911, AS empenha-se para que, no Barreiro, esta fique instalada no interior do complexo fabril. Como o próprio refere em carta datada de Junho desse mesmo ano, era do interesse da Companhia que essa instalação ficasse concluída o mais rapidamente possível.
AS fará também uso do lock-out e, por último, a despedimentos massivos. Trata-se quase sempre de despedimentos nas ordens das dezenas ou mesmo centenas de operários. Em 1919, por exemplo, a declaração daquela que será a maior greve na história da CUF do Barreiro, com uma duração superior a 40 dias, foi antecedida pelo despedimento de 500 operários, despedimentos que foram entendidos à época como retaliação à organização operária recentemente criada, e que aderira desde a primeira hora à UON.
Em 1911, por exemplo, onde, no Barreiro, contrariamente a Lisboa, não houve qualquer tentativa de greve, AS promove uma série de despedimentos preventivos. Como o próprio então afirmou, e cito, «disse mais que era sua ideia firme continuar a despedir indivíduos que estando a ganhar dinheiro da Companhia, são ou mostram ser contra ela, despedimentos que se efectuarão pouco a pouco, com a única explicação de que não convêm à Companhia, os seus serviços». Por último, a transferência de operários para serviços temporários que, quando concluídos, legitimavam e descontextualizavam a demissão dos abrangidos.
Apesar da relevância que as greves protagonizadas pelos operários da CUF desempenharam para o demais movimento operário – que se reflectirá, em 1919, na declaração de greve geral na vila do Barreiro e num comício de solidariedade ocorrido no Parque Eduardo VII com a adesão de milhares de operários, onde seria votada greve geral na capital por 48 horas, estas não ficaram inscritas na memória colectiva do Barreiro, eclipsadas pelas lutas protagonizadas pelas classes corticeira e ferroviária.
Para tal terá contribuído a política de despedimentos adoptada por AS, que inviabilizou a transmissão dessa memória de luta para as gerações vindouras dos operários da CUF, já que muitos dos abrangidos terão regressado às suas terras de origem.
Barreiro ter sido palco de distintas correntes ideológicas
Do mesmo modo, o facto do Barreiro ter sido palco de distintas correntes ideológicas, e de estas se terem como que sobreposto em camadas – sindicalistas revolucionários, anarquistas e, por último, comunistas que, a partir de meados da década de 30, se tornam a força aglutinadora da resistência -, justificará em parte essa mesma elisão, já que não foram instituídos mecanismos que permitissem a transmissão desse passado de luta. Se tomarmos como exemplo as greves de 43 – organizadas e dirigidas pelo PCP a que aderiram os milhares de operários da CUF - verificamos a situação é inversa. Em parte porque os protagonistas transmitiram para as gerações futuras essa mesma experiência – quer de luta quer da repressão imediatamente desencadeada – e o próprio Partido Comunista recorreu a mecanismos de transmissão de memória – assim, nas páginas do Avante, são possíveis de encontrar referências a essas mesmas greves, em notícias comemorativas de aniversário; e em 1958, por exemplo, quando se faz o apelo à greve contra a burla eleitoral, relembra-se aos trabalhadores da CUF, o seu passado de luta, o facto de estes estarem sempre, e cito, «nas primeiras filas de combate, nomeadamente nas greves de 1943».
É por alguns considerado que, relembrar os aspectos ditos «negativos» da história da CUF, é fazer uso de perspectivas do presente para reflectir sobre o passado sendo, portanto, uma visão comprometida. Antes do mais reafirmo aqui o que é evidente para muitos, ou seja, a construção histórica é inevitavelmente uma construção feita a partir do presente. E, tal como o historiador francês George Duby disse um dia, não há uma história objectiva, ou seja, imparcial. O que há e o que se pretende é o recurso a uma metodologia rigorosa no desempenho do ofício de investigador, sendo que este é, desde logo e também, um ser comprometido pela experiência que adquiriu, corolário da sua origem, um e outro formadores da sua consciência. Defender uma pseudo-neutralidade, uma pseudo-objectividade é, no meu entender, contribuir para a manipulação da história. Porque, de facto, para alguns segmentos da sociedade, é conveniente anular momentos de luta, direitos que ao longo de décadas, foram sendo progressivamente conquistados.
Numa época onde diariamente se assiste à não inscrição de momentos reivindicativos do presente, urge inscrever na memória as lutas do passado e tirar as devidas ilações para o que pretendemos para o nosso tempo futuro.














