Por dentro das palavras«Álvaro Cunhal – Sete fôlegos do combatente»
- Um brilhante «exercício de memória» um verdadeiro «manual de acção politica»
Por António Sousa Pereira
BARREIRO
Carlos Brito assume uma postura de dignidade moral, não renegando o seu passado, assumindo com orgulho as suas memórias, assim como expressa a sua gratidão a Álvaro Cunhal, no sentido de justiça e esperança num mundo melhor, que com ele partilhou e no intimo…ele próprio, hoje, «não deixa de acalentar».

Por Jornal Rostos
Álvaro Cunhal – Sete fôlegos do combatente
Memórias
de Carlos Brito
Quando iniciei a leitura do livro «Álvaro Cunhal – Sete fôlegos do combatente – Memórias», de Carlos Brito, à partida tinha o «preconceito» que este seria, eventualmente, um ajuste de contas do histórico Carlos Brito com o PCP e com Álvaro Cunhal.
Fui percorrendo as páginas e registando que, na verdade, Carlos Brito proporcionava um brilhante «exercício de memória» fazendo-nos recuar no tempo e reviver factos e acontecimentos.
E, quando conclui a leitura fiquei com o sentimento que, pela forma, este livro não é na realidade nenhum ajuste de contas mas, pelo contrário, é a expressão do orgulho de alguém por ter partilhado, ao longo da sua vida, momentos de relevante significado histórico para a vida do PCP e para a vida do país, lado a lado, com Álvaro Cunhal, que ele, Carlos Brito define como «uma figura marcante e das mais polémicas do século XX português».
Esta obra de Carlos Brito permite-nos conhecer os bastidores da vida politica partidária e reflectirmos, com e por dentro da vida de um partido ( certamente igual em qualquer partido) como algo que é fruto de relações humanas, de conflitos ideológicos, de movimentos de ideias que se cruzam com os movimentos da história.
Este livro é, sem dúvida, um brilhante exercicio de memória. Vale a pena ler e (re)encontramos-nos com estas memórias, pois ficamos a conhecer melhor os movimentos da nossa história recente.
Não se publica um livro só para fazer um exercício de memória.
E, na verdade, as ideias que recolhi desta obra é que, Carlos Brito, quer transmitir-nos, convictamente, três ideias-força:
1ª - que há mais comunismo para além do PCP;
2ª - que há mais PCP para além de Álvaro Cunhal;
3ª – que Álvaro Cunhal é uma personalidade incontornável na história de Portugal do século XX.
Com a primeira ideia-força, Carlos Brito exprime o seu respeito pelo PCP, sente que este foi o seu partido, que respeita, mas, também, sublinha que o PCP não tem o exclusivo, para definir quem é comunista, e, igualmente, quer deixar claro que não é pelo facto de se ser militante do PCP que se é comunista.
Para Carlos Brito, há mais comunismo para além do PCP.
Com a segunda ideia-força, Carlos Brito pretende sublinhar o seu respeito pela personalidade politica de Álvaro Cunhal, mas, igualmente, demonstrar que o PCP não é Álvaro Cunhal, repudiando qualquer culto de personalidade ou deificação do líder histórico, retratando-o como um homem de grande “labor ideológico”, de grande “labor politico”, que sempre colocou o PCP acima de tudo, recordando palavras de Álvaro Cunhal - “No Partido não há amigos, somos todos camaradas”.
Carlos Brito dá-nos facetas da personalidade de Álvaro Cunhal, o seu sentido critico e irónico.
Fartei-me de rir, com aquele episódio de um militante que não queria usar gravata.
Um militante do PCP devia integrar uma delegação numa visita a um país socialista e, no protocolo, em determinada situação era obrigado a utilizar gravata.
O militante recusava utilizar gravata.
Álvaro Cunhal para ultrapassar a situação, recordou que os árabes normalmente nesta situações não usam gravata, porque levam os seus trajes.
Assim, o líder do PCP, sugeriu que, de forma a passar por cima do protocolo, o militante utilizasse uma roupa típica de Portugal, propondo um contacto com a organização de Viana do Castelo para arranjar um traje regional.
Perante esta sugestão de Álvaro Cunhal, o militante do PCP, de imediato, concordou que utilizaria a gravata.
É este retrato da personalidade de Álvaro Cunhal,que, na verdade, é uma constante na obra de Carlos Brito.
Alvaro Cunhal tinha uma propensão para acompanhar e conhecer de perto a forma de estar e agir dos quadros politicos.
Com a terceira ideia-força, Carlos Brito quer deixar o seu testemunho pessoal, assumindo-se, como sendo o primeiro a erguer a sua voz em defesa da reconhecida dimensão histórica de Álvaro Cunhal, como figura de Portugal.
Carlos Brito repudia as eventuais «mesquinhas apropriações partidárias» do legado histórico de Álvaro Cunhal, daqueles que define como «alegados amigos», assim como, coloca-se, desde já, no lado da barricada contra aqueles que pretendam fazer - «ajustes de contas demolidores» vindos de «proclamados ou encobertos adversários e inimigos».
Carlos Brito sublinha, claramente que Álvaro Cunhal, condenou o estalinismo e criticou o culto da personalidade.
Outro aspecto que, na verdade, parece ser presente ao longo de todo o «exercício de memória» no texto de Carlos Brito,quer com reflexões desde os tempos da clandestinidade, passando pelo PREC, até à actualidade, é a abordagem teórica entre dois conceitos de partido – partido de massas ou partido de quadros.
Esta reflexão é essencial para compreender as tomadas de posição politica do PCP, as suas conflitualidades internas – ditos desvios ideológicos – e a contextualização quer do «centralismo democrático», quer do «marxismo-leninismo», assim como a importância do pensamento de Marx e do pensamento de Lenine na vida do PCP.
Quando Carlos Brito comenta com Álvaro Cunhal, quer antes do 25 de Abril, nas eleições de 1969 - CDE – quer após o 25 de Abril, o modelo de funcionamento de uma sede de actividade politica, o que está por trás desta reflexão é, na realidade, precisamente o paradigma de partido – de massas ou de quadros.
Em conclusão, esta obra de Carlos Brito permite-nos conhecer mais de perto a personalidade de Álvaro Cunhal, conhecermos os bastidores de movimentações politicas – caso dos acontecimentos do 25 de Novembro.
E, acima de tudo, esta obra, é um bom manual de reflexão sobre a acção politica, onde a teoria politica se mistura com as práticas politicas.
Enfim, uma obra que permite reflectir sobre o mundo, pensar, de facto, que o tempo que vivemos nunca é para pensar a preto e branco, nem está dividido em bons e maus
Aliás, é curioso registar a citação que abre o livro de Carlos Brito, que transcrevemos :
“Não pensamos que a sociedade esteja dividida entre bons e maus. A divisão não é essa. Dividimos o mundo, fundamentalmente, entre classes, entre exploradores e explorados. Uns que vivem do trabalho dos outros e outros que trabalham para que outros vivam”- Álvaro Cunhal – 1976
Em conclusão, Carlos Brito com esta sua obra lega um testemunho vivido das suas «alegrias e esperanças» e de alguém que está bem com a sua consciência. É um olhar sobre a dignidade dos dias.
Carlos Brito assume uma postura de dignidade moral, não renegando o seu passado, assume com orgulho as suas memórias, assim como expressa a sua gratidão a Álvaro Cunhal, dando sentido à sua vida, como alguém que sempre colocou na acção politica a vontade de promoção da justiça e esperança num mundo melhor.
Esta obra é uma memória de alguém que com ele - Álvaro Cunhal - partilhou os dias e a vida politica quotidiana, na acção, no fazer, e, no intimo…ele próprio, Carlos Brito, hoje, «não deixa de acalentar» essa esperança e esse sonho.
Obrigado Carlos Brito, por esta lição de história e de práticas politicas.
António Sousa Pereira














